Vi umas postagens sobre a decisão de interrupção de gravidez para anencéfalos e uma das leituras me chamou a atenção, algo próximo de "e se ele sobrevivesse e se ele conseguisse estudar e curar o câncer?". Li muita coisa, muitos argumentos; alguns bons, a maioria ruins. Me restringi um tanto, até agora, mas vou dar meu dois centavos de pitaco nessa discussão também.
Parte desses argumentos é emocional e não leva em conta o que é viável em termos médicos, outra parte é baseada em conceitos religiosos. Parte dos argumentos tenta dizer que o número de abortos vai automaticamente explodir nas estatísticas. Será?
Existe uma necessidade de maior informação sobre a anencefalia, sua origem, suas causas, sem dúvida. Ainda assim, algo que falta dizer na maioria dessas discussões é que a decisão do STF descriminalizou uma decisão. Essa é a verdade. A escolha de interrupção de gravidez de um feto anencéfalo foi descriminalizada, a partir de agora não é aborto – para fins penais.
Vejam só: se a mulher, grávida de um feto anencéfalo, quiser continuar a gravidez, ela pode? Sim, ela pode. E não há delegado, juiz ou pregador que vá impedi-la. Agora, se a mesma mulher, grávida do mesmo feto anencéfalo, quiser interromper a gravidez, ela pode? Sim, sem se preocupar em ir pra cadeia por ser crime o que está fazendo.
Entretanto, não posso garantir que não haverá um delegado, juiz ou pregador que tentará impedi-la.
Isso sim é algo que deveria preocupar as pessoas, o cerceamento de direitos. A falta de respeito as escolhas pessoais, quando possiveis de serem exercidas.
Em nenhum dos argumentos pró-vida eu vi uma defesa sobre a condição da mulher, sobre a escolha e o momento da mulher em todo esse processo danoso, emocionalmente extenuante e complexo. Não vi uma colocação, nos argumentos pró-vida, que levasse em conta a forma como a mulher se sentia em relação a isso. Disse o ministro Ayres Britto: "Se os homens engravidassem, a interrupção da gravidez de anencéfalo estaria autorizada desde sempre".
Sabiamente, o mesmo ministro disse que “Se todo aborto é uma interrupção de gravidez, nem toda interrupção de gravidez é um aborto para os fins penais” e foi exatamente isso que foi julgado. Para os fins penais.
Claro que muita gente prefere não enfrentar essa questão do aborto como uma questão de gênero, preferem alegar as influências de crença ou o direito do feto inviável como se a tutela do direito à vida pudesse ser invocada, é mais fácil argumentar assim. Entretanto, mesmo que se tampe o sol com a peneira, ele não deixa de brilhar. Essa é uma questão de gênero. Essa é uma questão de escolha, de escolha da família, mas principalmente da mulher. Está na hora de pensar e falar sobre isso.
Isso me leva de volta a pergunta lá de cima, a inicial, do que aconteceria na hipótese-medicamente-inválida de que o feto anencéfalo poderia virar um bebê e que o bebê poderia, quando crescesse, encontrar a cura do câncer.
Para esse questionamento, vi isso aqui embaixo no Blog da Lola e acho que responde muito bem:
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“E se o bebê que você abortou pudesse ter encontrado a cura do câncer?”
E se a pessoa trans espancada até à morte pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se o adolescente gay que se suicidou por causa de bullying pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se aquela jovem menina vendida pro tráfico sexual e morta por doenças sexualmente transmissíveis que não foram tratadas pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se um desses centenas de milhares de civis que foram mortos durante a guerra pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se aquela mulher que foi estuprada e depois morreu de complicações internas pudesse ter encontrado a cura do câncer?
E se todas as pessoas do planeta que não têm acesso ao ensino superior e viverão e morrerão na pobreza pudessem ter encontrado a cura do câncer?
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Pois é…
Lembro que em um filme que vi, que obviamente não vou lembrar o nome, o problema do protagonista-escritor era que ele não conseguia se inspirar em nada para continuar escrevendo.
Um autor experiente dá uma lição, dizendo que a inspiração está em toda parte. No mundo existem guerras, histórias, alegrias, tristezas, vitórias e derrotas, basta olhar e pronto. Lá está sua inspiração.
Achei engraçado lembrar disso ao ouvir, alguns dias atrás, uma história contada por uma amiga, que vou convenientemente – apesar de sem muita veracidade – chamar de Polyana. Sim, Polyana, com “y”.
Polyana é uma morena, não muito alta – mas também não tão baixa – espirituosa e de fácil riso. Ela me contou uma história e foi essa narração que leva a escrever essas linhas.
Polyana não tem muitas frescuras com alimentação. Come o que gosta, quando quer e pode comer. O tempo, até onde ela mesma admite, é seu maior problema.
Acontece que ela estava um dia falando com sua prima, Samira e com Jonas, marido de sua prima, e aquela vontade de comer carne apareceu.
- Ai gente, preciso comer carne. Carne de verdade.
- Ora, vamos a uma churrascaria então – sugeriu Jonas.
A ideia chamou a atenção de Polyana. Ela bem pensou. “Sabe que é uma boa ideia”
- Ah, mas não estou querendo gastar tanto assim.
Jonas abriu o largo sorriso e pegou o celular.
- Se o que estou pensando der certo, você não terá que pagar nada.
Meio segundo depois, estava ligando para Rodrigo.
Uma frase aqui, outra ali e combinaram o churrasco.
As mulheres prontas, Jonas ligou para Rodrigo novamente.
- Nossa cara, acabei de chegar da loja. Vou atrasar vocês, se quiserem ir sozinhos, não tem problema não.
- Não, a gente espera. Sem problemas.
- Certeza? Nossa, obrigado. Vocês passam aqui?
- Estamos indo.
Cidade pequena, coisa de quinze minutos depois já haviam chegado na casa de Rodrigo. Ele estava terminando de se arrumar, quando abriu a porta.
- Nossa, entrem gente. Desculpem o atraso. Vou acabar com o programa de vocês, hein?
- Nada – respondeu Jonas, olhando para as mulheres – Você já está quase pronto. Não vai estragar nada. Inclusive, a Polyana vai com você, tudo bem?
Polyana olhou para Jonas, que retribuiu o olhar com uma piscada de olho.
- Claro, sem problemas. – Rodrigo se aproximou dela estendendo a mão – Muito prazer.
- O prazer é meu.
Trocadas as cordialidades, eles subiram nos carros e foram para a churrascaria.
Apesar de confortável, Polyana não pode deixar de notar que, dentro da caminhonete Rodrigo não conversava. Apenas dirigia.
“Talvez ele esteja sem graça, ou seja tímido”.
Rodrigo era um pequeno empresário bem sucedido e, até onde Polyana havia ouvido falar, fácil de entrosar. Segundo Jonas, ele procurava uma menina bacana para namorar e, no entendimento dela, foi por isso que foi jogada pelo marido da prima para o carro de Rodrigo.
Chegaram à churrascaria outros quinze minutos depois. Cidade pequena tem suas vantagens.
Entraram, pegaram uma mesa.
“Duas promoções de rodízio para casais, por favor” – Pediu Jonas.
Começaram a comer e a conversar.
Polyana não deixou de notar que, durante todo o tempo, Rodrigo mal comia e não falava coisa alguma.
Apesar das insistentes indiretas que Jonas lançava, Rodrigo permanecia com meio sorrisos e comendo apenas. E comendo pouco.
Quando ele se levantou para ir ao banheiro, Jonas comentou de pronto.
- Caramba, desculpa Polyana, não sei porque ele não está conversando.
- Eu também não, e olha que não falei nada quando estávamos vindo.
- Ah, quer saber? Vamos aproveitar assim mesmo. A gente veio foi pra comer e não pra conversar, então deixa ele calado e vamos aproveitar.
Polyana sorriu, olhou para Samira e aquiesceu.
Por mais de uma hora e meia, eles comeram, riram e conversaram.
Ao fim de todo esse tempo, quando eles já estavam satisfeitos e um pouco moles de tanta comida e bebida, Jonas pediu a conta.
Jonas recebeu a comanda, repassou para Rodrigo olhar. O que aconteceu a seguir foi constrangedor.
Rodrigo pegou a comanda, analisou e olhou para Polyana.
- Nossa parte são trinta e cinco reais, dezessete e cinquenta para mim e dezessete e cinquenta pra você.
Jonas ficou vermelho de vergonha. Polyana abriu os olhos, empinou o nariz para manter a dignidade e pegou a bolsa.
Ela contou as notas e olhou para Rodrigo.
- Pode deixar – disse ele, retirando uma nota de vinte – eu pago aqui e você só me passa os quinze, fica mais fácil.
Ainda tremendo por dentro, com uma aparência de dignidade de uma dama, ela abaixou levemente a cabeça, concordando, e repassou os quinze reais para Rodrigo.
Na maior calma do mundo, ele adicionou as notas dele, colocou na comanda e repassou para Jonas.
Um silêncio sepucral se abateu sobre eles. Quando foi sair, Jonas ainda tentou consertar a situação.
- Rodrigo, você deixa a Polyana em casa?
- Sim, sem problemas – E entrou na caminhonete, destrancando a outra porta.
Polyana lançou um olhar mortal para Jonas. Ela percebeu quando Samira deu um beliscão no braço do marido e fechou o cenho para ele.
Dentro da caminhonete, Rodrigo ligou e começou a andar, quando, com muita seriedade, lançando a frase com naturalidade.
- Olha, não se preocupe Polyana, agora você só me deve dois e cinquenta.
E calou-se.
Rodrigo não riu. Não suspirou, não sorriu, nem nada. Ele falou sério.
Polyana estava uma pilha, nervosa, querendo gritar e xingar. Ela havia pensado na situação, até compreendia dividir a conta. Compreendia que não era um casal e que ele não tinha obrigação alguma de pagar nada para ela.
Mas cobrar dois reais e cinquenta centavos? Cobrar míseros dois reais e cinquenta centavos? Alguém dono de uma caminhonete nova, pequeno empresário bem sucedido e cobrando migalhas?
O orgulho de Polyana falou mais alto.
Sem perder a compostura, ela empinou novamente o nariz, discretamente remexeu na bolsa, tirou uma nota de cinco reais e colocou no porta-copos da caminhonete.
- Tá aí, fique com o troco.
Foi como mágica.
Ela colocou o dinheiro no porta-copos e Rodrigo começou a conversar, se soltar, perguntando sobre ela, querendo saber mais coisas.
Como uma pedra de gelo, ela respondia monossilábica. Esperou chegar na porta de casa. Agradeceu rapidamente, desceu do carro, bateu a porta e entrou.
Parecia que o destino estava esperando por isso. Seu celular tocou.
Era Jonas
- E ai? Ele te levou?
Perdendo, pela primeira vez na noite, toda compostura que ela segurou para manter, ela contou tudo que havia acontecido. Contou dos dois e cinquenta e de como o Rodrigo havia ficado solto, depois dela pagar.
Após alguns minutos falando impropérios, ela parou. Jonas estava mudo do outro lado. Se estivesse na sua frente, Polyana tinha certeza absoluta que ele estaria extremamente envergonhado. Aquilo lhe deu um certo prazer, afinal, havia sido Jonas quem tramara o encontro. Ele tinha sido o mentor de toda a situação.
- Olha, Polyana, desculpe. Eu não sabia que seria assim. Nossa, como eu estou com vergonha. Credo.
- Tudo bem – E foi a hora que Polyana havia aguardado até então – não se preocupe Jonas, da próxima vez que acontecer, se acontecer, eu pago a conta. Inteira.
Após alguns outros pedidos de desculpas, Jonas desligou.
Aquela noite Polyana foi dormir com raiva e sonhou.
Ela sonhou com dois e cinquenta.
Com malditos dois e cinquenta.