Apr 02 2008

Conversa Franca

Escrito por Willian às 11:25 am em Pergaminhos

 

- Alô?
- Oi, mãe?

- Filho! Que alegria, nossa tem tempo que você não liga.

- É faz um tempo mesmo.
- Tudo bem filho?
- Ah, mais ou menos
- O que houve?
- O Jefferson morreu
 
(um segundo de silêncio)
 

- Sinto muito, filho, morreu de quê?

- De AIDS, mãe
- Nossa, e ele era seu amigo?
- Não
- Conhecido? Colega?
- Não
- Então quem era ele?
- Meu filho
- Você tinha um filho?

- Sim, ele nasceu semana passada, mas não resistiu

 
(desespero do outro lado)
 

- Você teve um filho, semana passada, que morreu de AIDS?

- É, ele pegou da Creuza, ela é HIV positivo

 
(respiração aumentando)
 

- E você conhece essa Creuza de onde?

- Ah, eu conheci ela na cadeia, já tem uns dez meses.

- CADEIA?

- Isso, ela saiu no mesmo dia que eu.

- Você estava na cadeia?
- Sim, mas não foi nada demais não.
 
(soluços do outro lado da linha)
 

- Meu filho, você tá mentindo né? Você estava na cadeia por que, ai meu deus!

- Ah, foi nada não mãe, os gambé me pegaram quando eu estava entregando umas paradas

- Que paradas?! Que paradas filho, no que você esta metido?

- Eu? Em nada, entrega tranqüila, fiz nada não, era só um pozinho na facul.

- Ai meu Deus!
 
(choro descontrolado)
 

- Meu filho, volta pra casa, a gente dá um jeito.

- Não dá mãe.
- Como não dá?
- É que eu to sem carro.

- Mas e o carro que você ganhou quando passou no vestibular?

- Eu tive que dar ele pro alemão.
- E QUEM DIABOS É ALEMÃO?

- E o cara que manda aqui, ele ficou com o carro pra pagar uma dívida. E eu ainda tenho que entregar umas cargas pra ele, pra ficar tranqüilo.

- Você está usando drogas, filho, está?

- Não, deus me livre, claro que não. Era coisa da Claudinha, ela se meteu em uns rolos e falou pro Alemão que eu era namorado dela.

- E quem é claudinha?
- A menina que morava lá em casa.

- Tinha uma menina morando na sua casa? No apartamento que alugamos pra você?

- É, mas ela ficava lá só de dia, a noite ela saia pra trabalhar.

- Trabalhar?
 
(engolindo seco do outro lado)
 

- E ela trabalha em quê? O que ela tem a ver com você?

- Comigo? Nada. Ela é uma profissional de divertimento da noite.

- Ela é cantora, é isso?

- Bem, vamos dizer que os divertimentos que ela proporciona fazem os clientes dela cantarem de alegria.

- VOCÊ ESTAVA MORANDO COM UMA PROSTITUTA?

- Que isso, mãe, que discriminação, era apenas uma profissional do sexo.

 
(Choro descontrolado)
 

- Filho, o que você fez da sua vida?

- Que isso mãe, minha vida ta ótima. Lá no abrigo o pessoal cuida bem da gente.

- Mas que abrigo, do que você ta falando?

- Ué, foi o que falei, a Claudinha devia pro alemão, ela não pagou, ele foi lá no apartamento e colocou fogo em tudo. Aí ela disse que eu era namorado dela. O Alemão não marca bobeira, mãe, a senhora entende né? Aí ele passou fogo na Claudinha e disse que se eu não pagasse, ele fazia isso comigo também. Aí eu passei o carango pra ele e to fazendo umas entregas.

 
(Barulho de queda do outro lado)
 
- Alô?
- Filho?
- Pai?

- Filho, o que houve? Sua mãe desmaiou!

- Ah, eu tava contando umas coisas pra ela.

- Eu ouvi, tava no viva voz aqui. O que você fez da sua vida, meu filho?

 
(Desespero brotando)
 

- Bem, eu tenho que falar a verdade pai, não consigo mentir pro senhor.

- AINDA TEM MAIS COISA?
- Tem sim.
 
(silêncio)
 
- Ta, fala logo vai.
- Bem, é tudo mentira.
- O que é mentira?

- Tudo que eu falei, o que aconteceu é o seguinte, eu não tive filho com aids, não fui preso, não perdi o carro e nem queimei o apartamento. Ah, e eu não estou envolvido com traficantes nem com prostitutas. Eu apenas reprovei em quatro matérias.

 
(Choro do outro lado)
 

- E porque você fez isso filho? Sua mãe ta passando mal!

- Ora, pra vocês verem que tomar pau em quatro matérias não é tão ruim, poderia ser muito pior.

 

(Telefone bate no gancho do outro lado)

 

- Alô? Pai? Mãe? …. Ah… pelo menos eu falei pra eles.

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