Arquivo para April, 2008

Apr 14 2008

Primo Basílio

Escrito por Willian em Pergaminhos

De Eça de Queiroz:

 

“(…) Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, E parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!”

 

Muito dignamente usado por Marisa Monte (e Arnaldo Antunes):

 

Sem respostas ainda

Apr 02 2008

Conversa Franca

Escrito por Willian em Pergaminhos

 

- Alô?
- Oi, mãe?

- Filho! Que alegria, nossa tem tempo que você não liga.

- É faz um tempo mesmo.
- Tudo bem filho?
- Ah, mais ou menos
- O que houve?
- O Jefferson morreu
 
(um segundo de silêncio)
 

- Sinto muito, filho, morreu de quê?

- De AIDS, mãe
- Nossa, e ele era seu amigo?
- Não
- Conhecido? Colega?
- Não
- Então quem era ele?
- Meu filho
- Você tinha um filho?

- Sim, ele nasceu semana passada, mas não resistiu

 
(desespero do outro lado)
 

- Você teve um filho, semana passada, que morreu de AIDS?

- É, ele pegou da Creuza, ela é HIV positivo

 
(respiração aumentando)
 

- E você conhece essa Creuza de onde?

- Ah, eu conheci ela na cadeia, já tem uns dez meses.

- CADEIA?

- Isso, ela saiu no mesmo dia que eu.

- Você estava na cadeia?
- Sim, mas não foi nada demais não.
 
(soluços do outro lado da linha)
 

- Meu filho, você tá mentindo né? Você estava na cadeia por que, ai meu deus!

- Ah, foi nada não mãe, os gambé me pegaram quando eu estava entregando umas paradas

- Que paradas?! Que paradas filho, no que você esta metido?

- Eu? Em nada, entrega tranqüila, fiz nada não, era só um pozinho na facul.

- Ai meu Deus!
 
(choro descontrolado)
 

- Meu filho, volta pra casa, a gente dá um jeito.

- Não dá mãe.
- Como não dá?
- É que eu to sem carro.

- Mas e o carro que você ganhou quando passou no vestibular?

- Eu tive que dar ele pro alemão.
- E QUEM DIABOS É ALEMÃO?

- E o cara que manda aqui, ele ficou com o carro pra pagar uma dívida. E eu ainda tenho que entregar umas cargas pra ele, pra ficar tranqüilo.

- Você está usando drogas, filho, está?

- Não, deus me livre, claro que não. Era coisa da Claudinha, ela se meteu em uns rolos e falou pro Alemão que eu era namorado dela.

- E quem é claudinha?
- A menina que morava lá em casa.

- Tinha uma menina morando na sua casa? No apartamento que alugamos pra você?

- É, mas ela ficava lá só de dia, a noite ela saia pra trabalhar.

- Trabalhar?
 
(engolindo seco do outro lado)
 

- E ela trabalha em quê? O que ela tem a ver com você?

- Comigo? Nada. Ela é uma profissional de divertimento da noite.

- Ela é cantora, é isso?

- Bem, vamos dizer que os divertimentos que ela proporciona fazem os clientes dela cantarem de alegria.

- VOCÊ ESTAVA MORANDO COM UMA PROSTITUTA?

- Que isso, mãe, que discriminação, era apenas uma profissional do sexo.

 
(Choro descontrolado)
 

- Filho, o que você fez da sua vida?

- Que isso mãe, minha vida ta ótima. Lá no abrigo o pessoal cuida bem da gente.

- Mas que abrigo, do que você ta falando?

- Ué, foi o que falei, a Claudinha devia pro alemão, ela não pagou, ele foi lá no apartamento e colocou fogo em tudo. Aí ela disse que eu era namorado dela. O Alemão não marca bobeira, mãe, a senhora entende né? Aí ele passou fogo na Claudinha e disse que se eu não pagasse, ele fazia isso comigo também. Aí eu passei o carango pra ele e to fazendo umas entregas.

 
(Barulho de queda do outro lado)
 
- Alô?
- Filho?
- Pai?

- Filho, o que houve? Sua mãe desmaiou!

- Ah, eu tava contando umas coisas pra ela.

- Eu ouvi, tava no viva voz aqui. O que você fez da sua vida, meu filho?

 
(Desespero brotando)
 

- Bem, eu tenho que falar a verdade pai, não consigo mentir pro senhor.

- AINDA TEM MAIS COISA?
- Tem sim.
 
(silêncio)
 
- Ta, fala logo vai.
- Bem, é tudo mentira.
- O que é mentira?

- Tudo que eu falei, o que aconteceu é o seguinte, eu não tive filho com aids, não fui preso, não perdi o carro e nem queimei o apartamento. Ah, e eu não estou envolvido com traficantes nem com prostitutas. Eu apenas reprovei em quatro matérias.

 
(Choro do outro lado)
 

- E porque você fez isso filho? Sua mãe ta passando mal!

- Ora, pra vocês verem que tomar pau em quatro matérias não é tão ruim, poderia ser muito pior.

 

(Telefone bate no gancho do outro lado)

 

- Alô? Pai? Mãe? …. Ah… pelo menos eu falei pra eles.

Sem respostas ainda

Apr 01 2008

Fiquei rico!

Escrito por Willian em Amenidades, Pergaminhos

Fiquei rico!

Não ganhei na loteria não, antes que alguém pergunte.

O que aconteceu foi algo inusitado, mas foi exatamente assim.

Eu vou te contar.

Eu estava andando pela rua, olhando para os lados quando me vi conversando com Alfa Centauro, que me contava um pouco da história da dona Láctea. Coisa de fofoca pequena e sem maldade. Só um comentário mesmo.

Mas eu tinha que continuar minha ida, e passei a andar mais rápido, até chegar do lado do Walmart. Lá, pedi um Big Mac no Subway, mas daqueles especiais sabe, tipo eat fresh. Enquanto eu comia minha pizza do Habibs tomando coca-cola, me chegou Chitãozinho e perguntou se eu tinha visto o Mano Brown. O Xororó vinha atrás carregando umas sacolas do Carrefour. Coisa de cinema. Voltando ao Brown.

Falei que ele tinha acabado de passar com o Tim Maia, eles iam conversar com o 2PAC. Pra mim eles estavam mancomunados com os Mamonas Assassinas. No show que iam fazer no Rio, ia rolar de tudo. Aproveitei que eu estava em São Paulo e desci a paulista até chegar em Porto de Galinhas.

Lá, conversei com a Madonna que estava chateada porque estavam pegando no pé da Britney Spears.

“Coisa chata, né não?” e o Dalai Lama, que tomava uma caipirinha e comia camarão do meu lado, completou “É f0d@ mesmo, gente insana”.

Olhei pra ele com aquela cara de “Ó pai, ó” e ele falou “relaxa mano, é nóis”. Isso aí, pensei eu, "caveira".

Enquanto isso a Marisa Monte batia um papo com o Kurt Cobain, que ainda tava chateado por causa do lance da ex-esposa. Sabe como é, coração partido. Ela mandou uma de novos baianos enquanto o Bonno Vox trazia um copo de guaraná, feito de plástico reciclado e escrito “save the children, save the cheerleader, save the world”.

Nisso o Slash tocava com o Jack Johnson o reggae mais insano do mundo, enquanto o Bob Marley puxava o Dalai pro lado e falava “esses caras são show, nem eu faria melhor”.

Mas olhei no relógio e vi que a praia não estava pra cabritos. Saí de lá e subi pela Avenida Copacabana, esperando chegar ao Planalto. Passei perto de Belo Horizonte e acabei parando em Goiânia, para comer uma pamonha. Pamonha mesmo, de sal e com queijo.

Eu lá, comendo a minha bendita pamonha e chega o garçom, que não era o garçom, mas sim o Obama e pergunta “mais alguma coisa” e eu respondo “Sim, pelamordedeus tira o Bush de lá”. Ele suspirou triste e falou “Nem da hillary, que é mulher, eu dou conta” e saiu cabisbaixo.

Cara desanimado e preconceituoso, não paguei os dez por cento.

Andando na rua, chegando perto da catedral de Brasília vejo o Renato Russo sentado no banco ouvindo o Raul Seixas conversar sobre os anos do passado, coisa de 10.000 anos atrás. Sorri de leve e continuei o meu caminho.

Vênus, que brilhava desavergonhada no céu, me chamou para uma conversa e falei pra ela que se Marte descobre, eu ia parar pra lá de Plutão.

“É disso mesmo que quero falar, coitado do pequeno Ploutz, você não pode fazer nada?”

“Claro que posso, vou pedir pro Moraes Moreira conversar com o Arnaldo Jabor e enquanto ele estiver falando algo junto com o William Bonner, o Paulo Coelho vai fazer um ritual junto com o Papa, vai dar tudo certo, preocupa não”.

“Ah, então obrigada”.

No meu caminho de volta, lá paro eu por Paris enquanto resolvo comer uma Pizza em Madri. Coisa de doido, penso eu. Por que não como um bom churrasco gaúcho, pra aproveitar que estou aqui na Hungria?

Fui comer o tal do churrasco. “Com café, por favor.” “Descafeinado?” “Não, com leite”.

Ah! picanha que estava boa, parecia um cachorro quente de quatro queijos.

Nisso meu celular tocou.

“Companheiro, to precisando de você aqui, tão acusando a nossa colega de um tal de dossiê”.

“Beleza, já vou”

E lá fui eu ajudar o Sarcozi com um problema com a Carla Bruni. Casamento novo é complexo e Companheiro é companheiro, fédapu… bem… vocês entenderam.

Nesse ínterim, o Machado de Assis me pediu uma carona, eu falei “Bora, e traz a Elba Ramalho também”.

E lá fomos todos no submarino amarelo, até sermos parados no semáforo pelo Duque de Caxias.

“Mas o que diabos você está fazendo aqui em Moscou?” Eu perguntei

“Vim ajudar o Mussolini com um acarajé que ele inventou de fazer para a Rainha Elizabeth”

Balancei a cabeça e continuei no meu calhambeque, “bi bí”.

Nisso o Ringo empurrou o Axl e saiu correndo. “Crianças, bah”.

Roosevelt trazia uma bandeja de prata com a cabeça de Orfeu. Perguntei o que era aquilo e ele me respondeu que no Labirinto do Fauno, Rá havia feito uma aposta com Odin e que Bastet deveria fazer uma sopa de oráculo. Como a esfinge bateu asas e voou, então aconteceu isso.

Credo, que nojo!

E não é que o pequeno Plutão apareceu junto com Júpiter.

“Viemos agradecer” disseram.

“Que isso, foi nada não, não fosse a crise de Dengue teria saído uns doze minutos antes”.

Alegres, voltaram para o espaço.

Nisso achei um trevo de quatro folhas no chão e do lado dele tinha um ticket dourado do Willie Wonka.

Fiquei rico!
 

Feliz Primeiro de Abril, pra todo mundo.

Uma resposta até agora

« Prev