Caminhos se cruzam…

Pessoas vão e vem, em uma psicodélica dança frenética de magnetismo, atração, repulsão e dor. Nada dura, nada existe, ainda assim… tudo é eterno.

O sorriso no rosto do palhaço é apenas maquiagem e, como homem que é, sofre por dentro pela dor não compreendida. Nada resta.

Neste ambiente caótico e sem determinismo, nasce uma esperança. Uma criança. Uma cria do mesmo mundo de todos nós, uma cria igual e, ainda assim, diferente. O palhaço a olha de longe, espantado, atônito.

A criança anda descalça pela praça, olhando para pessoas que não olham para ela em retorno.

Admirada por ser ignorada, ela caminha até o palhaço.

Ele, ainda com o sorriso plástico e descascado, evita olhar a nova audiência de sua única platéia.

- E pá daqui, pá de lá! Quem passou aqui e não passou lá? – Ele deu uma cambalhota no chão.

A criança não riu.

Ele levantou as mãos ao ar e arrancou uma flor de plástico do paletó.

E aqui tem uma flor,

cheia de amor,

neste mundo de dor,

onde não se tem clamor,

vivendo no calor,

no despertar com ardor,

pedindo o seu favor,

galgando o seu louvor,

rindo com um suador,

nessa febre sem pudor,

incomodando o meu ouvidor!

A criança não riu novamente.

O palhaço então a olhou nos olhos.

- O que você quer pequenino?

O infante não respondeu.

- Não me acha engraçado? É isso?

Uma lágrima verdadeira brota no rosto do palhaço e escorre por sua face.

A criança o abraça solene e inerte. A retribuição não tarda; o palhaço envolve a pequena em um abraço afetuoso, terno e doloroso.

Com um beijo no rosto maquiado de branco, a criança sai de perto do palhaço.

Agora, com a maleta pronta, ele começa a atravessar a rua quando se dá conta de que a criança permanecia parada.

Ele olhou para trás e, pela primeira vez, viu a criança sorrindo. Aquele sorriso genuíno destruiu a dor do homem com sorriso de plástico.

E foi sorrindo que ele foi atropelado. E foi ainda sorrindo que ele viu o céu aberto sobre sua cabeça. E, no seu sorriso infinito, ele descobriu que a criança era ele mesmo.

E os caminhos se cruzam…

… e se separam novamente…

… nunca…

… e para sempre…