E Bruno chutou a bola para o meio da rua…

Não… espere… não começa assim…

Bruno era um garoto jovem e alegre… bem… não… isso também não é lá muito verdade… alegre ele até era… não… mentira… não era… Era triste… sempre foi triste porque se sentia sozinho.

Agora jovem, isso ele nunca foi!

Nasceu faz muito tempo; nasceu velho já, mas sempre foi uma criança.

Brincava com quem brincava com ele; quando não havia ninguém, ele brincava sozinho. Mas o tempo azeda o leite, e azeda também algumas pessoas. E ninguém gosta de ficar sozinho, isso é algo que todo mundo sabe… até mesmo as crianças.

Ninguém sabia onde ele morava… alguns, os mais velhos, diziam que era no meio da floresta, que ele era um espírito.

Essa sim era uma bobagem sem tamanho.

Ele realmente morava no meio da floresta; mas não era um espírito, não mesmo! Era mais como uma “divindade” (assim, com aspas mesmo), um ser diferente.

Ele era o bicho papão, Pan, o negrinho do pastoreio,  Cosme (ou seria Damião?) ou qualquer outra entidade que você consiga lembrar e que se relacione com crianças de alguma forma. O nome não importa. Ele era uma sombra, no meio desse nada sem sentido que chamamos, conveninentemente, de existência.

E acontece que ele sempre estava brincando.

E foi em uma dessas brincadeiras que ele conheceu Iara.

Ela era uma menininha rabugenta e enervada, no alto dos seus maduros e completos sete anos de idade. Mirrada, mas com belos cabelos negros, ela sempre estava brincando.

Metida a valente, Iara sempre brincava de bola com os meninos. E, para piorar, ela jogava melhor do que todos deles, com exceção de Bruno.

Um dia somente os dois estavam brincando e Bruno chutou a bola para dentro da "florestinha", como eles chamavam o conjunto de árvores que ficava ali perto. Iara foi correndo atrás.

Engraçado que ela não estranhou quando a bola foi parar perto do pequeno regato que passava ali, próximo às árvores. Ficou olhando as folhas caindo até a face brilhante da água, enquanto sorria.

- Sabe, eu tenho uma amiga que tem o mesmo nome que você – Bruno falou atrás dela.

- Tem? – perguntou curiosa.

- Sim… Iara… e ela gosta bastante de água também.

A menina sorriu.

- Você não gostaria de conhecê-la qualquer dia desses?

Iara não se fez de rogada. Empinou os ombros, colocou as mãos na cintura e foi firme na resposta.

- Claro! Mas duvido que ela jogue bola melhor do que eu!

Bruno riu do comentário, apanhando a bola e voltando para o pequeno campinho de grama onde jogavam.

Iara notou quando ele parou súbito e pareceu ter pensado em alguma coisa.

- Você realmente gostaria de conhecer a minha outra amiga, com o mesmo nome que você?

A menina entendeu aquilo como um desafio.

- Sim! Qualquer hora! É só você me levar!

- Tudo bem então, vai ser em breve. Pode ser?

- Sim! Qualquer hora, já falei!

Bruno viu um caminhão vindo rápido pela rua, olhou para a menina e tomou sua decisão.

- Tá bom… então vai pegar a bola! Corre!

Enquanto o garoto tomava distância, ela se preparou para correr.

Quando ele colocou a bola no chão, ela se antecipou e saiu correndo olhando para trás.

E Bruno chutou a bola para o meio da rua…