A maçaneta velha não fez barulho daquela vez, o que por si só já era algo notável. Sim, ela era velha; mas a mão era cuidadosa e conhecia os melindros daquela peça.
A mão, aliás, também sabia do velho truque de levantar a porta para que esta não rangesse e acordasse a todos. Mão sabida, bem treinada, experiente.
Com o vento frio uivando lá fora, foi com sagacidade que a mão fechou a porta, tateou o escuro e acendeu o pequeno abajur do canto da minúscula sala. Era melhor isso do que ligar a luz principal, poderia acordar alguém.
É bem verdade que não tinha muita gente para ser acordada, apenas uma pessoa. Mas era a pessoa mais importante do mundo e, hoje, merecia dormir tanto quanto conseguisse.
Sinoval, o dono da mão bem treinada, surrupiou os passos dos gatunos e, pé ante pé, chegou na pequena cozinha.
Abriu o pequeno embrulho que trazia debaixo do braço e tirou dois pães de queijo, uma maria mole e um pão francês, ainda quente.
Cortou o pão cerimoniosamente, colocou uma fatia de queijo e o deixou em cima de um pequeno prato. Os dois pães de queijo ficaram em cima, e a maria mole abaixo do pão. A disposição no prato parecia um rosto, sorrindo.
Retirou uma rosa, adquirida à moda antiga – cortada de uma roseira da vizinhança – e deixou ao lado do prato.
Pegou um pequeno pedaço de papel, sentou-se a mesa, e tentou escrever aquilo que ele havia ensaiado durante os últimos dias.
“Meu amor,
Felis niverssario,
Deus te abenssoa pra sempre
Di noite, nois aproveita mais
Beijo,
Sinoval”
O dono da mão bem treinada pegou sua marmita, seu facão e foi para o ponto, esperar o caminhão para a lavoura de cana.
Lurdinha acordou, lavou o rosto e sorriu ao ver o bilhete do marido e a rosa deixada sobre a mesa, ainda suja no cabo e com os espinhos. Quando sentou na cozinha e ligou o rádio, ainda entretida com a visão do prato, nem prestou atenção quando ouviu a notícia do caminhão que tombou, carregando bóias frias, naquela madrugada.
E, quando a comadre Joana contou do ocorrido, Lurdinha ficou aflita e triste. A rosa permaneceu no mesmo lugar, ao lado do prato vazio. Ela olhou para a imagem da santa em cima da geladeira e fez uma promessa silenciosa.
Quando a noite chegou e a mão calejada abriu a porta, encontrou uma mulher sentada no sofá, com um terço nas mãos e os olhos inchados.
- Mas, oxi, você não tinha que ta pronta, pra nóis saí?
A mulher se levantou correndo e abraçou o marido.
- Hoje não. Além do mais, eu cozinhei um músculo com mandioca e a sua cerveja já ta até gelada.
- Mas o aniversário é seu, cê não pode ficar fazendo as coisa não.
- Eu sei, mas hoje Nossa Senhora do Perpétuo Socorro me deu um baita presente e nóis vamo é fica aqui. Foi o melhor presente de aniversário que eu podia ganhar.
Lurdinha sorriu e olhou para a imagem da santa.
O melhor presente de aniversário de uma vida.
E era só dela.
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Nuossa! Que lindiu! Eu tava achando que seria um conto de Suspense / Terror! Tava esperando ele matar ela, ou ela suicidar! Algo assim hahahaha
Surpresa boa!… Parabéns!
Comment by Luiz Gonzaga — 29/04/2009 @ 7:43 am
Man,
Escrever com temas e finais mirabolantes é fácil, mas criar algo assim, simples e belo, tá um nível acima
Comment by Israel — 01/05/2009 @ 4:27 pm
Muito bom Willian. Gostei da história. parabéns!!
Comment by Alyson Charles — 15/06/2009 @ 9:29 pm