Pessoal,
(ao som de Metallica, of course)
O que vou dizer não é novidade. Está em vários sites pela internet e é exaustivamente explicado em livros sobre escrever.
Então, vou usar as palavras de um amigo para começar. Quando falamos de produção literária e textos novos, ele sempre me diz o seguinte: “Sabe, a porcaria é que a gente sempre quer escrever um best-seller logo de cara”.
Sim, queremos. Mas para isso existe solução.
Como uma amiga (meio desaparecida) e instrutora dizia: “só escreva”. O engraçado é que eu já vi gente do nível de Stephen King e Neil Gaiman dizer a mesma coisa.
Quando pedem um conselho aos dois sobre como escrever melhor, eles sempre tem uma ou outra dica, mas quando a pergunta é sobre como se tornar um escritor, a reposta não muda: só escreva. Uma palavra após a outra.
É claro que sempre tem as tradicionais, e incansáveis, frases prontas:
- Você precisa ler muito.
- Você precisa conhecer o seu público.
- Já sabe qual o seu mercado? A sua obra tem que ser vendável. (isso se você quiser ser publicado comercialmente)
- Você tem que fazer uma boa pesquisa.
- Sua obra tem que ser atraente, etc.
Mas, lembre-se, em algum momento sua preciosidade precisará ficar pronta. Então voltamos ao conselho inicial: escreva.
Somos, a maioria de nós escritores e pretendentes a escritores, procrastinadores por natureza. A gente enrola, deliberadamente.
Reclamamos do dia, do tempo, da falta de tempo, do teclado (mea culpa), do software de escrever (mea culpa 2), da falta de inspiração, da incredulidade quanto ao nosso trabalho, da quantidade de pesquisa que precisamos fazer e de mais um milhão de coisas.
A gente se acomoda, inventa desculpas, fica o dia todo fazendo um monte de coisas e não fazendo nada ao mesmo tempo. No fim, você vê que seu trabalho não andou tanto quanto queria e, algumas vezes, se pergunta o motivo.
Existem alguns corajosos que dizem “não escrevi, pois estava com preguiça/pois não queria”. A maioria de nós não tem coragem de ser tão sincero.
O que fazer então?
Usando as palavras de Neil Gaiman de novo: escreva.
Nos dias bons, você escreve. Nos dias ruins, você também escreve. Nos dias inspirados, escreva. E naqueles malditos dias em que o cursor fica pulsando na página branca, na sua frente, você precisa ter em mente que deve fazer uma coisa: escrever.
Afinal, é o que um escritor faz; escrever.
Nos dias bons, ruins, alegres, tristes, enfim, em todos os dias.
Conforme uma colega me perguntou “mas e os problemas no roteiro?”. Problemas com o roteiro aparecerão, você irá corrigi-los depois.
Outra pergunta boa foi “mas como saber se estou indo pelo caminho certo?”. Essa é mais fácil, enquanto você estiver escrevendo você está indo pelo caminho certo.
Claro, planeje, organize, pesquise, mas escreva. Não pare de escrever.
Na minha opinião, toda história tem potencial para se tornar uma boa história. Depende de quem conta e de como conta.
Nem todos os seus textos serão publicáveis, claro. Mas conta a experiência, conta o esforço. Você pode não perceber, mas cresce um pouco a cada palavra colocada no papel.
Todo mundo fala, por exemplo, da sumidade que foi Tolkien. Só que a maioria se esquece que ele também teve problemas. Quando ele escreveu “Numa toca no chão vivia um Hobbit”, a frase inicial – e provavelmente a mais famosa – de O Hobbit, ele não conseguiu terminar o livro. Isso foi em 1929 (aproximadamente). O Hobbit foi terminado somente sete anos depois (1936), a pedido de uma editora que leu uma parte do material inacabado. O Senhor dos Anéis – sua obra prima – demorou outros longos dezoito (18!!!) anos para ser publicado.
É óbvio que estamos falando de um escritor exímio, alguém que desenvolveu um mundo novo, com linguagem própria, raças e, a bem da verdade, foi a base para muito da fantasia fantástica existente hoje.
Ainda assim, fica a lição. Todo mundo tem dúvidas se está no caminho certo. O que importa é continuar.
Outra colega me disse “parece que algo se quebrou dentro de mim, não consigo escrever”.
E isso não faz parte da criação? Você doa sua energia, seu intelecto, seu esforço, o natural não é sentir que está meio “esgotado”? Sabe o que eu disse a ela? “Continue escrevendo”.
E isso, segundo ela, a ajudou.
E foi exatamente ouvindo o mesmo conselho, alguns anos atrás, que consegui terminar um texto com mais de duzentas páginas.
A história foi contada? Ah, sim. Definitivamente foi.
O material ficou bom? Tenho sérias dúvidas sobre isso. Mas a história foi contada e essa era a parte importante.
Como disse, nem tudo que escrevemos é publicável, mas quando escreve, você cresce.
E lembre-se que o seu editor interior sempre vai querer que você revise, corte, altere, melhore o seu texto.
Isso não é ruim, só que tem hora certa para acontecer.
Quando? No momento em que você colocar o último ponto final no texto, você conseguirá responder a essa pergunta.
Mas não edite enquanto cria. Misturar trabalho criativo com trabalho crítico nunca foi uma idéia bem aceita (ou bem sucedida).
Provavelmente você não vai acreditar e vai querer editar o seu texto enquanto escreve. Vá em frente, muita gente aprendeu desse jeito. Batendo a cabeça.
Mas lembre-se, mesmo com dúvidas sobre o roteiro, não sabendo se está bom ou não, achando que algo se perdeu e que não consegue criar mais, só existe uma coisa que você pode fazer: continuar escrevendo.
Faça isso por um tempo.
Se não funcionar, me escreva. Gostaria de ouvir sua experiência.
Agora, se funcionar, apenas dê um sorriso. Se você conseguiu, o mérito é todo seu.
Aproveite.
Posts
Verdade! Não tenho mais como duvidar de tudo isso!
Abraços
Comment by Moon Baby — 26/11/2009 @ 10:30 am
aliás… Metallica é uma excelente inspiração.
Comment by Moon Baby — 26/11/2009 @ 10:32 am
[...] This post was mentioned on Twitter by Willian Rabelo, Ceres. Ceres said: RT @willianrabelo: pessoal, post novo no blog http://is.gd/542K2 – Sobre escrever e continuar escrevendo, mesmo quando não sabemos o que … [...]
Pingback by Tweets that mention Hobbits e a Escrita. Escreva! | Willian Rabelo -- Topsy.com — 26/11/2009 @ 2:46 pm
meu unico comentário numa noite de chuva….
maldita tartaruga! hahahahah (voce me entende, eu sei…)
bjs
Comment by Ayslin1 — 26/11/2009 @ 7:56 pm
Escritores escrevem, músicos fazem música, matemáticos fazem conta… Tem escapatória não, man
Grande abraço!
Comment by Israel Teles — 29/11/2009 @ 6:09 pm
William… Posso chamar você assim? Porque, sei lá, senhor William ou senhor Rabelo parece tão distante para alguém que parece tão palpável. Desculpe. Me dê um xingão se estou abusando.
Então, sobre o texto…
Maravilhoso.
Ao som de Metallica? Caramba! Você, além de escrever feito música, gosta de Metallica! OK, OK, você vai me dizer que o rock é imortal e que Metallica é um clássico. Mas não é só isso. Putz! Acho que aqueles acordes e variações que as guitarras fazem são tudo de bom. Sem falar na batida. O rock tem essa coisa, certo? Mas tem que ter melodia e harmonia juntas. Do contrário, é perder tempo. E ouvido. Porque tem muita banda por aí que só grita e arrumas os acordes de forma que alguém que gosta de Metallica tem vontade de fugir pela fresta da fechadura.
Tudo bem. Eu entrei para ler o que você escreve. Porque você ESCREVE, diga-se de passagem. E encontrei esse texto que fala sobre o que eu gosto de fazer: escrever.
E concordo. Em quase tudo. É verdade. Sempre que se escreve, se gostaria de escrever algo do tipo – como diz aquela propaganda… – “Brastemp”. Não duvidando das outras marcas, obviamente. Mas sempre que lemos o que escrevemos nos perguntamos se aquilo tem valor ou é um texto daqueles que se pode jogar fora depois do primeiro parágrafo. Pior! Às vezes, só a primeira linha já diz que podemos praticar tiro ao cesto.
Mas não é fácil dizer: Escreva! Só escreva!
Como é difícil à princípio aceitar essa ideia.
Eu creio que se a gente pudesse só escrever, já seria um grande passo. Mas quando queremos escrever pensamos no quê escrever. E aí é que mora o perigo. Tenho umas ideias muito malucas a respeito de coisas ainda mais malucas. E tenho ideias obscenas de coisas muito singelas. Caramba! Só aqui, já dá para pensar em NÃO escrever. Concorda?
E, bem, além de ficar atônita com a confusão de ideias mirabolantes que passam pela minha cabeça, ainda tem aqueles conselhos que você listou no texto. Ler muito. Conhecer o público. Mercado? Eu achei que mercado fosse aquele onde eu compro minhas mercadorias… Vendável? Tipo… Van Gogh, enquanto vivo? Pesquisar é algo que eu gosto de fazer. Atraente? Bem… Sua escrita é atraente. A minha? É essa que você está vendo. Com um cuidado um pouco maior quando escrevo algo que preciso. Mas nunca tão boa quando eu gostaria que fosse.
Concordo também quando você diz que somos todos pretendentes a escritores. Acho que é nossa natureza – tentar argumentar e convencer os outros do que sabemos, pensamos, sentimos… Fazemos isso com a fala. Por que não com a escrita, certo? Mas discordo parcialmente quando diz que arrumamos desculpas. Por quê? Bem… Se não precisássemos sobreviver ao mundo contemporâneo, certamente ficaríamos sentados diante do teclado o tempo todo. Eu, ao menos, faria. Mas as coisas ao nosso redor nos chamam! O tempo todo. Eu adoraria ter 24 horas do meu tempo, todas, disponíveis para a escrita. De repente eu conseguisse escrever tão bem quando desejo. Mas também, tenho que admitir que arrumamos muitas desculpas. Você está certo quanto à isso. Sabe, eu escrevo, rabisco, desenho, sempre nos meus intervalos. Tenho esse hábito de carregar comigo um caderno. Ou gravar minhas ideias no mp4. Escrevo tudo o que se passa comigo. (“A vida é eterna em cinco minutos.” – uma música que a Joan Baez canta diz isso.) Escrevo todos os roteiros mais terríveis. Desenho coisas que me chamam a atenção. E aí, tenho uma coletânea de sabe lá o que se chamaria isso tudo. k k k k
Mas eu tenho meus dias de preguiça. Ah, se tenho! É quando eu, como já lhe contei, paro para ver o pasto crescer. Totalmente jogada ao mundo. Como se nada dependesse de mim. E não tenho problemas em admitir que, se me deixassem, ficaria por mais um bom tempo assim.
Escrever nos dias ruins é ruim. *sorrindo* Tem coisa pior do que escrever nos dias em que não se está bem? Tudo o que se escreve sai do jeito que o universo devia estar no primeiro segundo: um caos. Ou, muito pior do que isso, saem coisas deprimentes, angustiantes. Nossa! Mortais. Acho que os dias piores os temas são mais densos. São mais intensos. São dramáticos. Você começa a escrever e suas mãos não param. Nem sua vontade de matar meio mundo.
E, bem. Acho que roteiro é algo muito complicado. Exatamente porque tem que ser minucioso. Tem que ser claro e coerente. Mas é por isso que você escreveu sobre pesquisar, com certeza.
“Na minha opinião, toda história tem potencial para se tornar uma boa história. Depende de quem conta e de como conta.”
Isso que você escreveu é extremamente animador. Positivo no mais profundo sentido da palavra. É verdade. Pura verdade. Verdade verdadeira. Mas como deixar uma história simples, uma história capaz de ser lida e amada por umas poucas pessoas? E então, voltam as suas dicas do começo. Não tem jeito. O jeito é escrever a torto e a direito. Você venceu. Vou continuar escrevendo. Mesmo na escuridão. Mesmo na incerteza do que está saindo. E essa coisa de crescer escrevendo, bem… É um motivo mais do que suficiente para não parar mais. Mesmo que se guardem todos os rascunhos, mesmo que se escondam todos os textos, mesmo que as palavras nunca sejam lidas.
Obrigada.
Você realmente faz a diferença.
Um grande e carinhoso abraço.
Comment by emptyspaces11 — 01/01/2010 @ 11:24 pm