Sabe, é difícil falar de uma coisa que a gente não gosta. É complicado falar de algo pelo qual você não se interessa ou, por qualquer motivo que seja, não quer se envolver. É ainda mais difícil falar e não ser injusto ou incoerente.

Acontece que falar do oposto também é difícil. Falar de algo que você gosta muito, respeita, pelo qual tem certa reverência é tão complicado quanto falar daquilo que não te nutre nenhum sentimento. A diferença reside na expectativa.

Quando você gosta, e se envolve, as expectativas são altas. Você não quer fazer porcaria, um serviço mais ou menos. É com esse pensamento (e essa preocupação) que começo esse desabafo, pois vou falar de duas coisas que gosto muito. Ler e escrever.

Acabei de ler a saga de Lúcifer, do selo Vertigo da DC Comics, e estou a um só tempo pasmo e incrédulo quanto ao resultado.

Entrando um pouco no assunto, a saga conta a história de Lúcifer Morningstar, filho de Yahweh, e o seu envolvimento no fim do mundo que se aproxima. Não pretendo contar a história aqui, quem estiver interessado é só usar o Google.

Mas uso a série que li e, assim, entro na minha primeira paixão (usando essa saga como contexto): A Leitura.

Arte ainda pouco estruturada no nosso belo e incoerente país, a leitura é instrumento samaritano, usado parca e espaçadamente; apenas uma ferramenta na nossa lide. Dificilmente as pessoas encaram a leitura como objeto de desejo e produtor de prazer. Mas como diriam arautos espalhados por todos os lugares: “ler é sexy”. Mas por qual motivo?

Note que não se referem ao sexy relacionado ao carnal, mas a obliteração da mente. A falta da leitura leva à permanência no desconhecimento. Uma opção, claro. Ainda assim uma opção dolorosa de se viver. Mais dolorosa ainda de se partilhar.

Mas vejo que perdi o rumo. Vamos voltar à leitura e deixar as conjecturas de lado.

A leitura te abre um universo novo a cada página e aqui entro na saga que acabei de concluir. O que dizer de uma obra bem escrita, instigante, interessante e, sobretudo, não-previsível? Genial? Sim, mas o que mais?

Essa é a parte que reconheço estar pasmo. E inquieto.

Não sou um leitor fácil, como muitos que conheço. Acabo julgando enredo, personagens, situações, tudo isso antes de concluir o livro. Sem mea culpa aqui. Não me ensinaram a fazer esse julgamento, ele meio que se desenvolveu sozinho.

Furtar esse “mecanismo de análise” é algo incomum na maioria de minhas leituras. Não quero ser frugal e dizer que “por se tratar de uma graphic novel eu não criei expectativas”. Não foi o caso.

A história toda foi baseada em um dos melhores personagens coadjuvantes da saga de Sandman, de Neil Gaiman. Eu esperava uma boa história. Sendo bem sincero, eu desejava uma boa história, para dizer o mínimo.

Ainda assim, fiquei pensando no Storyboard de uma obra dessa magnitude. A história tem tantas reviravoltas, tantas linhas paralelas, tantas complexidades que você não faz idéia de como algo dessa grandeza é criado.

Não é um universo sem fim, é a luta que a maioria de nós – filhos da cultura judaico/cristã no ocidente – aprendeu desde que nasceu. É a luta do mais famoso dos anjos caídos contra a realidade, contra o status quo.

Acreditem, só esse parágrafo acima já daria muito pano pra manga. E a história segue, linear, alternada, criando universos, destruindo situações e criando outras em seu lugar.

O prazer que se tem de uma leitura assim beira a paz de espírito que tanta gente urge em perseguir com gritos e lágrimas falsas em templos de tijolos e argamassa… Mas… Voltei às conjecturas, não foi? Certo… Voltando ao assunto então…

Não falo que esse efeito é próprio dessa saga, isso poderia ter acontecido com qualquer leitura complexa, bem escrita, bem definida e, acima de tudo, interessante. O ponto que desejo defender é que esse prazer, mesmo não sendo um prazer para poucos, é de poucos.

Não só pelo fato da maioria dos leitores serem, tecnicamente, analfabetos funcionais; mas também pelo motivo da grande maioria dos leitores não conseguir abstrair a realidade, não conseguir se envolver na história e deixar-se levar pela carruagem da imaginação.

Quase um sacrilégio.

Lendo, aprendemos não somente com nosso cérebro, mas com nosso espírito. Percebemos um pouco do mundo que o autor criou e, dessa forma, compartilhamos um pouco da energia que ele dispensou na criação. Sentimos sua alegria, compartilhamos sua dor, vivemos a vida que ele criou e aprendemos a respeitar o espaço e o tempo que se tornou material fotográfico e que ele usou como cenário.

Ler, sem envolvimento, é como tentar ouvir música sem prestar atenção nenhuma e, ainda assim, querer compreender algum sentido. Tarefa difícil até mesmo de simular. Pretensão pura e simples.

Dessa forma, vejo que ler é atividade complexa, mas que deveria ser mais comum. Infelizmente, não é essa a realidade. E, de certa forma, isso me entristece bastante.

Ainda assim, é necessário dar mais um passo. Preciso falar do segundo ponto, a Escrita.

Escrever é criar; como o artista que pinta em tela branca ou esculpe em bloco de rocha. O resultado? Ninguém sabe ao certo. Em um determinado momento a criação toma forma e, a partir daí, evolui sozinha.

Criar uma caixa totalmente determinada, uma história pronta, pode até ser mais fácil, mas somente o randômico, o caótico, consegue dar vida ao que seria apenas plástico sem forma.

Quando se cria, etapas são cumpridas. Como numa jornada mística, onde o caminhar leva o viajante até o ponto onde este pretende chegar, a rodovia da criação literária tem suas paradas.

Nesses locais você conhece melhor suas personagens, os conflitos que as mantêm, seus desejos, medos. Você se torna o deus de um mundo. O seu mundo.

E qual a maldade de um criador que não conhece ou respeita suas criaturas? Quão cruel é isso?

Quando se escreve, a história vai se formando, se organizando, se dividindo e, por fim, se aglutinando naquilo que é o produto final. Seu texto.

Separar este texto em etapas é tão importante quanto se preparar para uma longa viagem. Ninguém além de um tolo sairá em uma viagem sem conhecer seu destino ou que provisões deverá levar.

Até quando se anda sem direção você tem um destino: nenhum lugar em específico, até as pernas cansarem, até o dinheiro acabar, até aprender alguma coisa, etc. Com a escrita não é diferente. Você precisa saber até onde chegar. Cumprir etapas. Finalizar.

Pois toda jornada tem fim. A sua escrita também.

Para isso você precisa de ferramentas, de capítulos, fichas de personagens, pesquisa, informação, música e tudo mais que lhe for necessário.

Mas quando tudo que precisa está na sua mão, não tem mais jeito. Você precisa escrever. Escrever muito, escrever com o coração, com coerência dentro do possível, mas sempre fiel ao seu propósito. Sempre fiel ao seu mundo.

A sua história pode nunca sair da gaveta (ou do arquivo do Word), mas ela precisa ter um fim, não acha?

Por essas e outras, escrever é arte. Mesmo os livros técnicos, os livros feitos “para vender” precisam do esforço de quem os escreve. Não pense que o livro se faz sozinho, isso simplesmente não é verdade.

Agora, unindo os dois lados da corda e finalizando o laço, é preciso ler muito para conseguir escrever com coerência.

Somente com o esforço contínuo, com doação do seu eu, com revisões sem fim, você vai evoluindo, tanto como leitor quanto como escritor.

“Nós, leitores, precisamos de nossos heróis”, me disse uma amiga. Eu concordo e acrescento: nós, escritores, precisamos de nossas histórias. Precisamos de nosso mundo, de nossos assassinos, de nossos vilões, heróis, magos de vidro, cavalos de papel e rajadas de metralhadoras. Precisamos da criação e do momento de criar. E, se possível, precisamos que o leitor precise dos heróis que criamos.

Pois não existe escritor que não queira ser lido, assim como não existe leitor que não goste de um ou outro escritor.

O que nos une é o sonho, o onírico. Escrito por uns, aproveitado por outros.

Sempre juntos, mesmo que em lados opostos da mesma moeda.