Muito daquela noite deveria ser facilmente ignorado. Muito precisava ser esquecido. Praticamente tudo iria desaparecer da memória.
Exceto o beijo.
Na noite que já não possuía forças para continuar, o Caminhante andava a passos largos, porém trôpegos. Passos que lembravam os do ébrio, mas não havia álcool no corpo do Caminhante. Não haviam drogas físicas ou materiais.
Havia, entretanto, a lembrança. E, como faca afiada a cortar a pele, a lembrança era forte demais. Forte para fazer a realidade parecer sonho e, o sonho – maldito sonho – virar realidade.
Mas o que era a realidade naquele instante? A realidade era o beijo.
E isso era tudo que o Caminhante conseguia lembrar.
Do beijo.
Do maldito, delicioso e inesquecível beijo.
Ela já não tinha mais lágrimas. Suas mãos há muito haviam parado de tremer, mas seu espírito ainda estava abalado. Como poderia aquilo tudo acontecer? Maldito escorpião…
Lembrou-se de sua criação simples, de ajudar na casa da senhora, de correr no fim do dia, sozinha, pelos campos. Lembrou-se de andar, uma única vez, à cavalo. Era noite, se lembrava, e só montou o corcel por imaginar que ninguém a veria.
Mas alguém a viu. Ele a viu.
E, mesmo sem perceber, seu corpo ainda formou lágrimas em seus olhos. E ela sorriu.
O Caminhante caiu de joelhos. O sabor do beijo, tal como absinto, tragava sua alma. Pensou na mulher, considerou-a uma bruxa. Olhou para as próprias mãos. O sangue ainda escorria, como se não houvesse um fim para aquele rio vermelho.
E lembrou-se do beijo.
E permaneceu de joelhos.
Suspirou. Não havia bruxa.
E a alegria abandonou sua alma.
O corcel corria e o vento batia em seus cabelos. A liberdade era tamanha que ela não conseguia deixar de sorrir. A grandeza de sua alma preenchia tudo ao seu redor. Ela estava feliz. Em anos, sentiu aquilo pela primeira vez. Feliz.
Seus olhos não viram quando ele, o dono do corcel, puxou a rédea. Ela caiu. Sentiu forte dor no braço. Ouviu gritos, xingamentos. Viu uma lâmina prateada cortar o ar e rasgar o pobre vestido que a cobria.
Suas lágrimas começaram neste instante. O cheiro do dono era pior do que o cheiro do animal. Suas mãos sujas eram piores do que o mais podre dos excrementos.
E suas lágrimas continuaram.
O Caminhante ouviu gritos e apressou-se. Viu um cavalo magro fugindo e dois corpos lutando no meio da escuridão. Aproximou-se. Um gordo homem-macaco se espreguiçava sobre pequena pomba. Não teve dúvida.
A mão alçou a pedra no chão e, certeira, foi ao encontro do homem-macaco. Um grunhido forte e o corpo caindo para o lado.
Ela percebeu que a respiração dele havia se afastado. As lágrimas, por um instante, secaram. Ela viu o dono do corcel caindo ao lado. Uma mão a puxou forte. Ela olhou para frente e viu o rosto mais bonito que já havia visto na vida.
Seu sorriso começou a aparecer quando a dor da alma lhe trouxe de volta à realidade. Porque a diabólica lâmina de prata, tal qual maldoso escorpião, lhe ferira na cintura? Porque novamente? Outra vez?
Ela não havia percebido que a noite estava tão escura. E parecia escurecer mais a cada instante.
O Caminhante viu os olhos brilhantes da pobre mulher. Não conseguiu deixar de notar a pele alva. Ela começava a sorrir, quando o vulto do homem-macaco se ergueu em suas costas. Ela tropeçou, perdeu as forças e caiu.
A luz brilhante e prateada da lamina da morte passou em sua frente. O Caminhante levantou as mãos e sentiu uma risada de sua carne. Um rio vermelho que se formou junto aos pequenos sorrisos em cada palma.
Sua pele, também branca, agora partilhava a cor que se espalhava pela cintura da pobre mulher.
A amiga pedra, protetora do início, valeu-lhe novamente. Forte, manchado, girando como as rodas das carroças, o audacioso pedregulho encontrou sossego na testa do homem-macaco.
Dessa vez não houve grunhido, só a queda. O brilho prateado escorreu da mão daquele que arfava sobre a pobre mulher. O corpo foi ao chão. A perna esquerda tremeu uma vez. Duas. Três. E ficou imóvel.
O Caminhante se aproximou da pobre mulher.
Ela viu a noite escura ficar, por uma fração de segundo, mais clara. O rosto mais belo que ela já vira estava em sua frente. Ela sorriu, ou pensou sorrir. Suas mãos, que seguravam a picada do maldoso escorpião, encontraram o belo rosto.
Ela o aproximou, mordeu o lábio inferior e pensou, por um segundo, como o escorpião poderia ter sido tão maldoso. Mas agradeceu que pudesse ter visto o amor no rosto de um desconhecido.
E ela o beijou.
O Caminhante viu a pobre mulher tirar as mãos manchadas da cintura. A cor alva da pele era agora rubra, o rio da vida se esvaía da mulher. A mão dela, áspera de muito trabalho, ficou suave ao tocar seu rosto.
Ela parecia querer sorrir. E, lentamente, ela o puxou.
Como fio de vida, novelo de linha mágica, ela se aproximou dele.
E o Caminhante a beijou.
E o mundo parou, por um instante, para ver aquilo que poderia ter sido. E o mundo chorou.
O Caminhante se levantou, desesperado. Quis socorrê-la. Ela ignorou. Sorriu para ele e apontou a cintura. Ele entendeu.
Os olhos dela não negavam a alegria, mesmo se tornando opacos a cada instante. Ela apontou a estrada com a mão direita. A esquerda fazia uma viagem entre a boca, sob a forma de um beijo, e seguia até o coração.
Ela sorria, enquanto seus olhos choravam. E ela não notou que suas mãos estavam parando de tremer.
O Caminhante correu, seus pulmões saindo pela garganta. Caminhando, o Caminhante caminhou. Correu novamente. Caminhou. E em sua cabeça apenas uma lembrança.
O beijo.
O maldito, delicioso e inesquecível beijo.
[...]
E a alegria abandonou sua alma.
Pois não há amor que dure para sempre, nem que seja tão curto que não possa ser sentido na alma.
Enquanto existem aqueles que demoram uma vida para tentar achar o famoso amor. A outros, pobres, é dado conhecê-lo em sua plenitude, numa fração do tempo. E essa fração pode ser tudo que haverá em suas vidas.
E a esses, só resta lembrar.
Do momento.
Do amor.
Do beijo…
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