Sabe, não sou de reclamar.
Tá bom, sei que você já ouviu isso antes, talvez de outra pessoa, mas é algo esquisito. Isso de reclamação, eu digo.
Ora, não se faça de desentendido. Você sabe do que estou falando. Mas vamos lá, uma história foi o que prometi, não?
Então, eu estava nessa festa sabe? Medieval. Era perto de Boston, acho que comemoravam o dia de alguém da época de mil-quinhentos-e-alguma-coisa… ou seria de mil-e-quatrocentos-e-tanto? Não me lembro e, pra ser sincero, acho que não importa também…
Foi assim, lá estava eu, caneta na mão, bloco de papel na outra. Olhava tudo, prestava atenção e tentava anotar alguma coisa. A ordem havia sido clara. “Vá ao festival e faça uma matéria”
Matéria dos infernos, eu te digo, isso sim.
Bom, lá estava eu, sentado na sombra, vendo essa linda menina tocando violino. Sou mais uma guitarra, mas a moça não era qualquer uma. O som era fantástico e ela não parava entre as músicas, não dava pausa… Esquisito… Gostoso, mas esquisito…
Nessa hora, eu bem aproveitando, quando vem e senta um velho ao meu lado. Bela porcaria, não? Sol gigante brilhando no céu, um monte de lugar nas sombras para se sentar e o cara veio sentar do meu lado? E eu não estava nem um pouco com humor para companhia.
Pois é, eu me preparo para levantar e ir para outro lugar quando ouço a voz do velho.
“Fique aí, filho. Não vai querer perder essa moça tocando. Ela é fantástica.”
“É, eu vi. Mas preciso ir.”
“Não, você não precisa. Sente-se.”
Acho que foi o timbre da voz ou a firmeza, sei lá. Sei que encarei o velho, achei engraçado e acabei sentando novamente.
Por mais vinte minutos eu escutei a moça tocando. Não pareceu tanto. O velho só balançava a cabeça, vez ou outra grunhia e era isso. Preciso ser sincero aqui, eu praticamente nem notei que ele estava lá.
Ele estava certo, a moça era fantástica.
Quando ela parou de tocar, ninguém nem bateu palma. Acho que todos estavam boquiabertos com a apresentação ou não conseguiam se expressar.
Olhei em volta e, para meu espanto, ninguém prestava atenção. As pessoas só andavam de um lado para o outro. Aquilo me deixou meio possesso.
Não ligo muito pra isso de reconhecimento artístico e tudo mais. Acho mesmo é que todo mundo só quer ganhar o dinheiro e pagar as contas no fim do mês. Mas, ei! Aquilo ali era arte. Genuína. A coisa verdadeira.
“É, também não gosto quando não aplaudem”
“Como?” Perguntei, como se o velho tivesse ouvido meus pensamentos.
“Eu disse que também não gosto quando não aplaudem. Fosse outro eu não falaria nada, mas a menina tem talento. Ela toca com o coração.”
Pensei em uma resposta qualquer e em ir embora. Mas o velho tinha razão. Valia a conversa.
“Também acho, não é meu estilo, mas a garota é boa.”
Ele me olhou com um misto de dúvida, quase um ar de inquirir.
“Sim, ela é boa. Vamos, eu te pago uma bebida.”
“Ah, não obrigado. Eu não bebo.” – Mostrei o meu broche do AA – “Sete meses e contando. Um dia de cada vez.”
Ele deu uma risada.
“Tá bom, eu te pago uma água. Vamos caminhar. Meu nome é Stevie.”
Stevie, certo.
“Stevie, ahn? Paul.”
“Você é repórter, Paul?”
“Sim, por quê?”
“Notei o bloco e a caneta. Quer uma história para o seu jornal?”
Peguei a garrafa com água e ele alguma coisa escura em um copo que a atendente serviu.
“Claro, manda aí… alguma coisa vai explodir hoje? Alguém vai morrer?” Comecei a rir até encarar o velho e ver que ele me olhava, sem emoção alguma.
“Você sempre brinca com as notícias, filho?”
Isso de ele me chamar de filho toda hora era desagradável. Resolvi pelo ar sério do jornalista.
“Não, o que você tem?”
“Hoje é dia de São Patrício, você sabia?”
“Não”
“Pois é filho, é por isso que está acontecendo esse festival. É um festival para comemorar a Irlanda e, com isso, o medievalismo que vocês não tiveram aqui na América.”
“O senhor é Irlandês?”
Ele riu alto.
“Não mesmo, graças aos céus. Nada de ouro no fim do arco-íris de onde eu venho. Mas então, hoje, as três e trinta e três da tarde, a catedral metropolitana de Saint Patrick, em Nova York, irá explodir. Você não dirá nada para ninguém, porque não acreditará em mim. Mas nos encontraremos novamente e, quando isso acontecer, você irá acreditar.”
“Espere, terrorismo? É isso?”
“Não, claro que não. Vão alegar que foi por causa do gás, não vão encontrar vestígios de nada. Ninguém saberá o motivo, mas você saberá que eu te contei.”
“Por quê?”
“Porque preciso que você acredite e não tenho tempo para outros métodos. Aproveite sua água.”
“Ei, espere. Isso é sério? Isso da explosão?”
“Garoto, existem duas coisas falsas nessa situação toda. A primeira é o nome que te passei, você sabe que meu nome não é esse, e sabe que não vou te falar o meu nome verdadeiro.”
Ele tinha razão. Não acreditei no nome desde o instante em que o ouvi.
“E qual a segunda coisa?”
“Esse festival, na época em que as coisas aconteciam mesmo, quinhentos ou seiscentos anos atrás, não era assim. Especialmente o cheiro. Fedia muito mais, acredite, fedia demais. Não era nada tão limpo ou organizado e, naquela época, as fezes ficavam no meio de todo mundo.”
Era óbvio aquilo. Não entendi a ligação.
“E porque diz isso?”
“Porque eu estava lá e me lembro. Até outra hora, Paul.”
O velho caminhou em meio as outras pessoas e desapareceu.
Olhei no meu relógio, eram três e vinte e cinco.
Resolvi ir ao banheiro.
As três horas e quarenta minutos, naquela tarde, vi na televisão uma chamada especial da CNN. Havia acabado de acontecer uma explosão na Catedral de Saint Patrick, em Nova York. Pelo jeito, havia sido um vazamento de gás.
Olhei para a garrafa de água, ainda na minha mão.
“Merda”
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