Certo, aqui vamos nós de novo não?
Essa será a minha resenha de Dragões de Éter: Corações de Neve, do Raphael Draccon.
Estava em minha lista faz tempo. O Raphael até me cobrou a leitura do livro; mais de uma vez.
Raphael, meu nobre, sei que você vai ler isso aqui. Aviso que vou tomar a liberdade de chamá-lo, na maioria das vezes, pelo primeiro nome. A leitura, enfim saiu… A resenha também. Espero que goste. Um grande abraço.
Resenha – Dragões de Éter: Corações de Neve – Autor: Raphael Draccon

Certo, essa resenha pode conter um ou mais spoilers e como talvez ela seja BEM longa, então, para você que não quer estragar a surpresa (ou não quer ler muito), aqui vai um Q&A rápido:
- O livro é bom?
- Sim.
- Você recomenda?
- Absolutamente.
- Preciso ler o anterior para ler este aqui?
- Não, mas se tiver lido vai ser BEM melhor.
- As histórias continuam?
- Sim e não. Elas continuam, mas se você não leu o anterior vai ter uma boa idéia do que aconteceu e não terá problemas para entender. Além do mais, existem histórias novas.
- É um livro infantil?
- Não.
- Infanto-Juvenil?
- Também não. (Embora a classificação literária correta seja essa)
- Que tipo de livro é?
- Daqueles que te fazem sonhar.
- Livros para adultos?
- Para qualquer pessoa. Para quem puder se permitir sonhar; seja pela primeira vez ou depois de muito tempo sem se lembrar como se sonha.
- É um livro para meninas?
- Sim.
- É um livro para meninos?
- Sim.
- É um livro sobre amor?
- Sim.
- É um livro sobre guerra?
- Sim.
- Se é isso tudo, o que ele não é?
- Uma oportunidade a ser desperdiçada.
- Vale à pena comprar?
- Sim. Mas compre dois. Um para você e outro para dar de presente. Não será apenas um presente, mas uma ação que pode mudar a vida de alguém.
E se você não quer ler spoilers, melhor parar por aqui. Pois demônios de Aramis sobrevoam nossas cabeças, reuniões secretas são realizadas, grupos voltam a se organizar e é agora, meus amigos, que a caça às bruxas voltará…
Se alguém aqui se lembra, eu já havia feito uma resenha do primeiro volume dessa saga, lançado, na época, pela Planeta. Essa resenha pode ser encontrada aqui.

Essa edição, a da Planeta, ficou para colecionadores. Hoje, todas as versões serão lançadas pela Leya, incluindo o primeiro livro, a ser relançado em breve.
Para aqueles que têm o primeiro livro, como eu, considerem-se sortudos e felizes. Vocês viram nascer uma estrela e isso, gente, é história.
Na minha primeira resenha falei como Raphael escrevia bem e como havia conseguido dar uma levantada na literatura de fantasia nacional. Depois dele vieram outros, mais notadamente Leandro Reis “Radrak” e Eduardo Spohr (pesquisem no Google).
Fantásticos escritores do fantástico. Leiam, leiam ambos… Mas hoje não vamos falar só de fantasia, vamos falar também de sonhos… E, para sonhos, hoje no Brasil, só existe um nome: Draccon.
Não quero que essa resenha seja aquele tipo de texto chato, crítico, que fala da Jornada do Herói, das Viradas Textuais, Argumentos Cíclicos e tudo mais. Para aqueles que querem ler sobre isso, vou fazer a lá Ariane Narin, vou mandar “na lata”: Está tudo lá. Tudo. Certinho. Metricamente, ritmicamente, tudo. E, não, senhores espertinhos, não vamos voltar nesse assunto mais. O livro é tecnicamente inquestionável. Se alguém duvida, vá ler e comprove por inteiro.
Por onde começar?
Pelo sonho, é claro. Afinal, tratamos de sonhos aqui.
Então, amigo Leitor, esvazie sua mente, me dê sua mão e vamos dançar. Pois a música já começou e não podemos deixar de bailar…
É assim que o livro te trata. Como em uma dança.
Algumas vezes frenética; noutras, mais lenta. Em alguns instantes, como em um romântico e belo dançar lento e suave, enquanto em outros, como em um verdadeiro show de rock, pesado, com o som sujo, barulhento.
E qual o motivo de comparar literatura com música?
Ora, ambas são expressões artísticas e, somente depois de experimentar, você entende o quão importante elas são.
Raphael nos dá isso. Mais uma vez.
E, gente, isso é mágico. Isso mesmo, mágico.
Mas vamos ser práticos, sim?
Se você procura um livro de romance épico, esse é o seu livro. Ah, você quer ação? Esse é o seu livro. Nada, você quer magia, é isso? É o seu livro então. Nada disso? Você quer uma boa luta de boxe? Adivinhe só! É o seu livro. Tudo bem, você não gosta disso, prefere política? Então, meu amigo, esse é o seu livro. Filosofia? É o seu livro! Ah tá, religião então… é… sinto muito… mas esse é o seu livro.
Sim, é difícil acreditar, mas é verdade.
Em menos de 500 páginas, e, por favor, não pense que isso é pouco, você encontra tudo que eu falei acima e ainda mais.
As referências são para pessoas dos 10 aos 80 anos. Você tem de Shakespeare a Che Guevara. Sai de Nirvana, passa por Jorge Amado e cai, de cabeça, em Loreena McKennitt.
E é incrível o timing, mas eu estava vendo/ouvindo o DVD Nights from the Alhambra quando comecei a ler o livro. E logo nas primeiras páginas, BAM, uma referência a Loreena McKennitt.
E não para por aí.
Para os entendidos, passaremos pela Noite Escura da Alma. Quem leu, sabe.
É para te deixar zonzo, meu amigo, muito zonzo. E fascinado. E você vai rir; acredite, você vai rir. E também irá chorar. Não metaforicamente, mas de verdade. Com lágrimas.
E o que faz um homem de trinta anos dizer isso? Ora, por ser verdade. Porque eu também chorei. E as lágrimas de um sonho não são lágrimas das quais se sente vergonha.
Alguns dias atrás, disse a uma amiga: “Sem as pessoas que fazem o que gostam, os sonhos começam a morrer. E sem sonhos, a vida perde o sentido.”
Mas isso deveria ser algo que todo mundo pensasse, não?
Raphael nos diz exatamente isso, afinal, “você precisa de um trabalho para sobreviver, mas você precisa de sonhos para viver”.
E não seriam os sonhos, o que de mais puro possuímos?
E não nos tornamos amargos e arredios, quando deixamos de sonhar?
“Ah, mas quero ver você falar de sonhos para a dona Flavonilda, que tem sete filhos para criar e é mãe solteira”.
“Ah, como você ousa vir falar de sonhos, para alguém que é excluído da sociedade?”
Sim, venho e ouso. Porque é preciso.
Os sonhos, que tocam o Éter na obra de Raphael, são o que de mais precioso possuímos.
Pois são também sonhos de liberdade, sonhos de uma vida melhor. Sonhos de que o bem vence o mal e espanta o temporal, como cantavam Gorpo e Dree Elle, no He-Man.
E Raphael toca nisso. Toca no sonho e na realidade. Na assustadora realidade do tráfico de drogas que mata tantos jovens e toca em Tropas de Elite. Em caçadores que, pelo poder que tem, podem acabar fazendo algo ruim com pessoas que não deveriam sofrer mais.
Ele levanta a questão que Allan Moore já havia levantado: “Quis custodiet ipsos custodes”, o bem e velho “quem vigiará os vigilantes”, que na visão Peter Parkiana seria o “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”. E, aqui, há de se ter um cuidado enorme, pois ele toca nas bases de política pública, segurança e cidadania. E toca bem.
Com metáforas, com imagens, mas com seriedade também.
Fala dos tempos de festa, onde o que importa é mostrar a “cidade limpa”, mesmo que, para isso, seja necessário varrer para debaixo do tapete um pouco da sujeira que – como todos sabem – existe em qualquer lugar.
E não é tão simples como um “bota na conta do papa”. Nunca é.
Ele fala de traição, da briga entre irmãos. Entre pai e filho. Mãe e filha. Amigos. Inimigos. Da briga física, da briga pela honra. Da briga retórica. Da luta por um ideal, por uma nação. Da luta por um sonho.
Falando assim, parece o supra-sumo da escrita. Não é. Como eu disse na primeira review, ele não é Shakespeare e não é Goethe. Não é Saramago. Mas agora volto a frisar o ainda.
Raphael melhorou demais a escrita. Muito mesmo.
Não que fosse ruim, na verdade era melhor do que a imensa maioria. Nacional ou não. E ele só não estourou como sucesso mundial, meus amigos, porque suas obras ainda estão em português.
Porque o primeiro livro é bom. Mas o segundo é incrível.
Melhor que Olimpianos.
Melhor que vampiros.
Não tenha dúvidas disso…
Claro que o livro tem falhas, foi feito por um ser humano. Mas qual o tamanho de uma falha para um livro como Dragões de Éter: Corações de Neve? Praticamente desconsiderável.
O livro merece ser bem tratado, pois nos trata bem também.
Desde citações de Romeu e Julieta, passando por koans e chegando a Gaiman, de quem sou fã assumido, o texto de Raphael vem fluído, fácil.
Pode parecer deslumbramento, mas somente uma mente sem preconceitos com a literatura, uma mente que permite que o onírico apareça, pode compreender o que digo.
E você irá chorar, e irá sofrer.
E verá os Mestres Anões, que são também pecadores em seus nomes, em uma performance para lá de Hollywoodiana. E você verá um coração se partir, em busca de cumprir uma obrigação, quando o amor falar mais alto e, ainda assim, a razão triunfar.
E você verá um menino se tornar homem. E, com isso, assumir todas as responsabilidades que um homem possui.
E esse menino-homem amará como somente um ser puro consegue amar. E sofrerá. E lutará. E sofrerá novamente. E triunfará. Porque somente o amor verdadeiro triunfa. E contos de fadas precisam de amores verdadeiros.
Raphael desconstrói, constrói, destrói e cria novamente. Afinal, “nem sempre os contos de fadas terminam com final feliz” é um alerta para ser guardado no coração.
E o tema recorrente é a figura de um Pai. De vários Pais. Daquele pai que te ama, que te faz sofrer, te faz chorar. Do Pai físico. Do Pai celestial.
Do pai que você ama.
E o último discurso de João Hanson é de partir um coração gelado.
E a visão de Robin Locksley, andando, de costas para o perigo, nos lembra Aragorn que ao nascer do sol, olhou para o oeste, para ver Gandalf aparecer, cavalgando junto aos Rohirrim.
E Arzallum apareceu.
E o livro é emocionante.
E fantástico.
E isso vindo de alguém que leu quatrocentas e noventa e quatro páginas em dois dias, e não parou de pensar na história, por um segundo sequer, deve significar alguma coisa.
Porque, se Raphael Draccon, como pessoa, for metade do que demonstra ser como escritor. Ele é o tipo de gente que você ia querer chamar de amigo.
Porque, ser apenas fã, já não é mais uma opção…
Agora é aguardar "Círculos de Chuva"… E que venha logo…
Então…
Que os seus heróis vivam mil anos, Raphael.
E parabéns.