Willian Rabelo

Orelha – Um cara legal

September 15, 2011 por

Olá Pessoas, tudo bem?
 
Me lembrei de uma história, que pode ou não ser verdadeira, contendo ou não pessoas reais, que eu posso ou não ter conhecido pessoalmente, em um assunto que aconteceu de verdade ou que eu inventei ou um misto dos dois, ou nenhuma das alternativas. ;-)
Feita essa introdução nada direta e objetiva, vamos à história em si, pode ser?
Eu estava na faculdade, alguns anos atrás.
Ta bom, muitos anos atrás. :-D
E sempre tinha esse colega nosso, um cara cheio de espírito, pra cima e metido a alegre. Gente boníssima.
Você que já fez faculdade, já conheceu alguém assim.
Lembrou dele(a)?
Bacana. Guarde a imagem.
Você que ainda não fez, provavelmente também já conheceu alguém assim também. Se não conheceu, ainda vai conhecer.
Enfim.
Claro que eu era jovem e, como bom jovem que era, é claro que a conversa sempre rodava em torno de festas, carros, garotas, bebidas e como a gente sempre iria se dar bem e em como o mundo sempre ia ser um lugar legal, onde nossos sonhos seriam realizados e seríamos o sucesso do impossível.
Quando o mundo se jogaria aos nossos pés.
Se reconheceu?
Mas voltando…
Esse nosso colega, que a gente chamava carinhosamente de Orelha, namorava uma menina muito bonita, magra, cabelo cacheado castanho e olhos azuis.
Ela era meio separada da galera, mas era gente boa também e bem descolada de um tanto de preconceitos. Boa pra conversar quando você já não tinha idéia do que estava falando.
E foi assim que, certa vez, se não me lembro mal, estávamos conversando, enquanto caia uma garoa fina do lado de fora do prédio da faculdade e chega o Orelha com a namorada, os dois rindo loucamente, aos abraços e tal.
A gente ficou pressionando, perguntando o que tinha acontecido, porque tanta alegria, tanta felicidade e tal.
O Orelha não agüentou e mandou direto.
- Cara, não é alegria nem felicidade não. Só estamos rindo de uma parada aí.
Uma parada aí.
E isso era pra ser uma resposta? Ahn?
A pressão não diminuiu, claro.
Conta, conta, conta.
Não sei se todo mundo percebeu, mas eu percebi quando o Orelha virou meio de lado e buscou o olhar da namorada. Me pareceu que ela meio que ficou um pouco constrangida, mas balançou suavemente a cabeça.
Uma galera foi embora, outra galera ficou.
A pressão sumiu, o assunto mudou.
Pouco tempo depois, ficou só a galera mais conhecida e o Orelha falou.
- Cara, é que a gente tava transando hoje e ela ta começando a ficar meio menstruada, e meio que as coisas se misturaram e caíram no chão. E a cachorrinha dela veio e meio que comeu tudo.
Acho que ele não tinha total noção do que ele tinha acabado de falar e começou a rir, ela também, mais tímida, mas também totalmente a vontade. Pelo menos parecia a vontade.
Eca.
Sim, eca.
Esse foi o pensamento e o sentimento geral. Ninguém riu. Só os dois. E parecia que o mundo não era nada pra eles, os olhares que trocaram, os abraços e o riso sincero foram, naquela hora, algo próximo de constrangedor pra quem estava assistindo e tinha acabado de ouvir uma daquelas.
Os dias foram passando e os dois ainda mais próximos. Sempre pra cima e pra baixo e já era meio comum encontrar os dois em qualquer lugar.
E acho que essa imagem é a que destoa.
E destoa porque o que veio a seguir é uma espécie de negativo. Quase uma contramão.
Outro dia, chegou o Orelha, fumando um cigarro. Tenso. Me chamou e mais alguns amigos pro lado. Saímos da aula.
- Que foi cara?
- Cara, acho que ela ta grávida.
Fiquei mudo.
Os outros colegas todos rindo, abraçando o cara. Eu fiquei parado. Talvez eu não tivesse a real magnitude da coisa toda e devesse ter dado os parabéns pra ele. Mas não consegui. Eu e mais dois colegas não conseguimos. Só ficamos lá parados.
O que dizer para um cara em uma hora dessas? Ele, quando chegou, não parecia exatamente feliz com a informação.
O Orelha nunca fumava. E quando eu digo nunca, eu quero dizer nunca mesmo. Tipo só quando o pai dele morreu.
Mas isso é outra história.
Sei que o Orelha ficou um pouco, ouviu umas piadas, riu um pouco, saiu pra beber uma cerveja com alguns colegas e foi embora.
Embora mesmo.
Ele ficou desaparecido coisa de umas duas semanas. Ou coisa de um mês. Não sei ao certo.
Sei que ele não atendia telefone, não respondia e-mail.
Faltou prova.
E, apesar de ser legal pra caramba, o Orelha era meio caxias. Daqueles que não saem falando que gostam de estudar, mas que, em casa, acabam pegando um livro ou outro, só pra “ver de qual que é”.
Um dia, chegando do trabalho mais cedo, direto pra faculdade, vejo o Orelha andando.
Estavamos em uns cinco ou seis colegas e ele chegou.
Tremia.
Os olhos vermelhos, o nariz inchado.
- Orelha, você andou cheirando alguma coisa?
Todos rindo.
Ele de cabeça baixa.
As risadas foram cessando.
Quando eu percebi, tinha uns molhados pequenos no chão de cimento sob os pés do Orelha, pareciam uns pingos. Olhei pro céu procurando chuva, mas nada. Tenho que admitir que sou meio lerdo, não sei se fui o primeiro ou o último a perceber.  Sei que não fui eu que verbalizei, mas o colega do lado.
- Orelha, você ta chorando, cara? Que aconteceu?
A voz veio embargada, pesada. Totalmente perdida da alegria que sempre carregava. Ela veio sofrida, tardia, quase pedindo para ser esquecida.
As palavras cortaram o vento que nos rodeava.
- Eu matei meu filho.
O espanto foi geral.
O silêncio também.
- Como assim? Perguntou o mesmo colega que havia verbalizado a pergunta sobre o choro.
- Eu matei meu filho. Matei. Matei.
O Orelha meio que caiu no desespero. Sentou-se no chão. Meio balbuciando, meio choramingando.
- Ela abortou. Ela abortou e a culpa é minha. Matei meu filho cara. Matei meu filho. Eu sou um assassino. Que tipo de cara eu sou? Um assassino. Um monstro.
Os colegas começaram a consolar o Orelha, começaram a dizer alguma coisa pra alegrá-lo, pra tirar aquilo da cabeça dele. Foi quando ele olhou pra mim. Não sei se esperando alguma coisa, alguma palavra, alguma frase. Qualquer coisa.
Mas a única coisa que saiu da minha boca foi um puro e sincero:
- Mas que merda, cara. Que merda.
Não sei se pelo choque ou se por ele já estar mais do que passado por conta do trauma, mas ele balançou a cabeça, olhou para o lado e ficou lá. Sentado no cimento.
No final, a galera acabou conseguindo tirar ele dali. Acho que foram beber em algum lugar. Coisa assim. Lembro que aconteceu algo e só foram alguns, não todos. Mas não lembro bem o que foi. Só, que eu não fui.
Claro, o Orelha e a menina de cabelos castanhos se separaram.
E ele sofreu pra caramba.
E se culpou pra caramba.
E ficou mal pra caramba.
E em um mês estava namorando outra menina, essa tinha cabelos claros.
E eles eram legais pra caramba. Juntos.
E ela era mais legal que a menina de cabelos castanhos.
E eles viviam andando pra cima e pra baixo.
E os dois comemoravam juntos e também brigavam juntos.
E eles terminaram, claro.
Mas ela nunca falou nada sobre um cachorro comendo algo que não parecia natural que comesse.
E ele namorou mais um tanto de meninas.
E os dias passaram.
E o Orelha se formou, se tornou empresário, se casou e teve dois filhos.
E hoje eu encontro ele por aí.
E ele sorri pra caramba.
E ele conta muitas piadas.
Mas nunca voltou a ser o cara que era antes.
Nunca mais voltou a ser um cara cheio de espírito, pra cima e metido a alegre. Mesmo ainda sendo gente boníssima.
A minha teoria é que algo se quebrou dentro do Orelha no dia em que ele se sentou no chão. Mas ele nunca mais tocou no assunto e, até onde sei, ninguém nunca mais tocou nesse assunto com ele também.
E tem um ditado que fala que águas passadas não movem moinho.
E se é assim, porque diabos então eu me lembrei dessa história?
Por que, como li algum escritor famoso dizer em algum lugar, com a devida licença poética, “algumas histórias nunca são esquecidas”.
E acho que essa não foi. Pelo menos pra mim.
Orelha, cara, sei que você não lê esse blog.
Mas não se preocupe, essa história não é pra você.
Essa história não é sobre um cara na faculdade que viu a namorada abortar um filho e que ficou se culpando. Um aborto que, aliás, ninguém nunca conseguiu explicar se foi espontâneo ou não.
Não.
Essa história é sobre um cara que viu essa história toda e que, quando olharam pra ele, esperando alguma coisa, uma frase qualquer, tudo que ele conseguiu dizer foi um bom, puro e sincero:
“Mas que merda, cara. Que merda.”
Sejam felizes.

Monsters

September 8, 2011 por

“…Monsters are real, and ghosts are real too. They live inside us, and sometimes, they win.” – Stephen King

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