Ah… a imaginação…
Essa danada que não tem controle e pensa o que quer, mesmo longe da realidade.
Criando sua própria fantasia e fazendo disso a verdade…
Ah…
A imaginação…
Imaginação
Feliz ano novo
Pessoal,
Nem todo mundo comemora o ano novo agora. É uma comemoração muito mais baseada no "ano comercial" do que nas crenças de cada um.
Uma pessoa especial me disse o seguinte: "O ano novo de cada um é comemorado no seu aniversário, é quando o ano começa para aquela pessoa." – acho que existe razão nisso.
Ainda assim, é tempo de recomeçar. O dia é novo, o ano é novo e tudo permaneceria velho? Vejo que não, e vejo que o fantástico de tudo isso é que parece que recebemos um bloco de notas novinho em folha, um caderno, uma folha no word. E, agora sim, poderemos escrever nossa vida do jeito que queremos. Isso é ter esperança, e a esperança nos faz melhores…
Que esse sentimento nunca nos abandone; que nossa vida e nossa escrita possam melhorar esse ano.
Sejam felizes e um fabuloso 2012 para todos!
Inspiração e dois e cinquenta – Uma história de Polyana
Lembro que em um filme que vi, que obviamente não vou lembrar o nome, o problema do protagonista-escritor era que ele não conseguia se inspirar em nada para continuar escrevendo.
Um autor experiente dá uma lição, dizendo que a inspiração está em toda parte. No mundo existem guerras, histórias, alegrias, tristezas, vitórias e derrotas, basta olhar e pronto. Lá está sua inspiração.
Achei engraçado lembrar disso ao ouvir, alguns dias atrás, uma história contada por uma amiga, que vou convenientemente – apesar de sem muita veracidade – chamar de Polyana. Sim, Polyana, com “y”.
Polyana é uma morena, não muito alta – mas também não tão baixa – espirituosa e de fácil riso. Ela me contou uma história e foi essa narração que leva a escrever essas linhas.
Polyana não tem muitas frescuras com alimentação. Come o que gosta, quando quer e pode comer. O tempo, até onde ela mesma admite, é seu maior problema.
Acontece que ela estava um dia falando com sua prima, Samira e com Jonas, marido de sua prima, e aquela vontade de comer carne apareceu.
- Ai gente, preciso comer carne. Carne de verdade.
- Ora, vamos a uma churrascaria então – sugeriu Jonas.
A ideia chamou a atenção de Polyana. Ela bem pensou. “Sabe que é uma boa ideia”
- Ah, mas não estou querendo gastar tanto assim.
Jonas abriu o largo sorriso e pegou o celular.
- Se o que estou pensando der certo, você não terá que pagar nada.
Meio segundo depois, estava ligando para Rodrigo.
Uma frase aqui, outra ali e combinaram o churrasco.
As mulheres prontas, Jonas ligou para Rodrigo novamente.
- Nossa cara, acabei de chegar da loja. Vou atrasar vocês, se quiserem ir sozinhos, não tem problema não.
- Não, a gente espera. Sem problemas.
- Certeza? Nossa, obrigado. Vocês passam aqui?
- Estamos indo.
Cidade pequena, coisa de quinze minutos depois já haviam chegado na casa de Rodrigo. Ele estava terminando de se arrumar, quando abriu a porta.
- Nossa, entrem gente. Desculpem o atraso. Vou acabar com o programa de vocês, hein?
- Nada – respondeu Jonas, olhando para as mulheres – Você já está quase pronto. Não vai estragar nada. Inclusive, a Polyana vai com você, tudo bem?
Polyana olhou para Jonas, que retribuiu o olhar com uma piscada de olho.
- Claro, sem problemas. – Rodrigo se aproximou dela estendendo a mão – Muito prazer.
- O prazer é meu.
Trocadas as cordialidades, eles subiram nos carros e foram para a churrascaria.
Apesar de confortável, Polyana não pode deixar de notar que, dentro da caminhonete Rodrigo não conversava. Apenas dirigia.
“Talvez ele esteja sem graça, ou seja tímido”.
Rodrigo era um pequeno empresário bem sucedido e, até onde Polyana havia ouvido falar, fácil de entrosar. Segundo Jonas, ele procurava uma menina bacana para namorar e, no entendimento dela, foi por isso que foi jogada pelo marido da prima para o carro de Rodrigo.
Chegaram à churrascaria outros quinze minutos depois. Cidade pequena tem suas vantagens.
Entraram, pegaram uma mesa.
“Duas promoções de rodízio para casais, por favor” – Pediu Jonas.
Começaram a comer e a conversar.
Polyana não deixou de notar que, durante todo o tempo, Rodrigo mal comia e não falava coisa alguma.
Apesar das insistentes indiretas que Jonas lançava, Rodrigo permanecia com meio sorrisos e comendo apenas. E comendo pouco.
Quando ele se levantou para ir ao banheiro, Jonas comentou de pronto.
- Caramba, desculpa Polyana, não sei porque ele não está conversando.
- Eu também não, e olha que não falei nada quando estávamos vindo.
- Ah, quer saber? Vamos aproveitar assim mesmo. A gente veio foi pra comer e não pra conversar, então deixa ele calado e vamos aproveitar.
Polyana sorriu, olhou para Samira e aquiesceu.
Por mais de uma hora e meia, eles comeram, riram e conversaram.
Ao fim de todo esse tempo, quando eles já estavam satisfeitos e um pouco moles de tanta comida e bebida, Jonas pediu a conta.
Jonas recebeu a comanda, repassou para Rodrigo olhar. O que aconteceu a seguir foi constrangedor.
Rodrigo pegou a comanda, analisou e olhou para Polyana.
- Nossa parte são trinta e cinco reais, dezessete e cinquenta para mim e dezessete e cinquenta pra você.
Jonas ficou vermelho de vergonha. Polyana abriu os olhos, empinou o nariz para manter a dignidade e pegou a bolsa.
Ela contou as notas e olhou para Rodrigo.
- Pode deixar – disse ele, retirando uma nota de vinte – eu pago aqui e você só me passa os quinze, fica mais fácil.
Ainda tremendo por dentro, com uma aparência de dignidade de uma dama, ela abaixou levemente a cabeça, concordando, e repassou os quinze reais para Rodrigo.
Na maior calma do mundo, ele adicionou as notas dele, colocou na comanda e repassou para Jonas.
Um silêncio sepucral se abateu sobre eles. Quando foi sair, Jonas ainda tentou consertar a situação.
- Rodrigo, você deixa a Polyana em casa?
- Sim, sem problemas – E entrou na caminhonete, destrancando a outra porta.
Polyana lançou um olhar mortal para Jonas. Ela percebeu quando Samira deu um beliscão no braço do marido e fechou o cenho para ele.
Dentro da caminhonete, Rodrigo ligou e começou a andar, quando, com muita seriedade, lançando a frase com naturalidade.
- Olha, não se preocupe Polyana, agora você só me deve dois e cinquenta.
E calou-se.
Rodrigo não riu. Não suspirou, não sorriu, nem nada. Ele falou sério.
Polyana estava uma pilha, nervosa, querendo gritar e xingar. Ela havia pensado na situação, até compreendia dividir a conta. Compreendia que não era um casal e que ele não tinha obrigação alguma de pagar nada para ela.
Mas cobrar dois reais e cinquenta centavos? Cobrar míseros dois reais e cinquenta centavos? Alguém dono de uma caminhonete nova, pequeno empresário bem sucedido e cobrando migalhas?
O orgulho de Polyana falou mais alto.
Sem perder a compostura, ela empinou novamente o nariz, discretamente remexeu na bolsa, tirou uma nota de cinco reais e colocou no porta-copos da caminhonete.
- Tá aí, fique com o troco.
Foi como mágica.
Ela colocou o dinheiro no porta-copos e Rodrigo começou a conversar, se soltar, perguntando sobre ela, querendo saber mais coisas.
Como uma pedra de gelo, ela respondia monossilábica. Esperou chegar na porta de casa. Agradeceu rapidamente, desceu do carro, bateu a porta e entrou.
Parecia que o destino estava esperando por isso. Seu celular tocou.
Era Jonas
- E ai? Ele te levou?
Perdendo, pela primeira vez na noite, toda compostura que ela segurou para manter, ela contou tudo que havia acontecido. Contou dos dois e cinquenta e de como o Rodrigo havia ficado solto, depois dela pagar.
Após alguns minutos falando impropérios, ela parou. Jonas estava mudo do outro lado. Se estivesse na sua frente, Polyana tinha certeza absoluta que ele estaria extremamente envergonhado. Aquilo lhe deu um certo prazer, afinal, havia sido Jonas quem tramara o encontro. Ele tinha sido o mentor de toda a situação.
- Olha, Polyana, desculpe. Eu não sabia que seria assim. Nossa, como eu estou com vergonha. Credo.
- Tudo bem – E foi a hora que Polyana havia aguardado até então – não se preocupe Jonas, da próxima vez que acontecer, se acontecer, eu pago a conta. Inteira.
Após alguns outros pedidos de desculpas, Jonas desligou.
Aquela noite Polyana foi dormir com raiva e sonhou.
Ela sonhou com dois e cinquenta.
Com malditos dois e cinquenta.
Pois é
Pois é.
Já parou pra pensar no que você sabe?
No que já passou?
Nossa vida é o resultado de tudo que passamos. De tudo aprendemos um pouco, levamos um tanto e deixamos outro tanto.
Acabamos sendo, ainda que mais ou menos, o somatório de tudo que vivemos.
É complicado achar que sempre precisa haver algo novo, algo ainda não descoberto. Não nego que esses momentos existam; claro que existem. Só não acho que eles são tão frequentes como gostaríamos que fossem.
Se não houver pesquisa, busca, dúvidas, nada novo será descoberto; mas essas descobertas não são exatamente isso? Novidades?
Elas não acontecem com todo mundo a todo instante. Entende?
E, veja só, ainda que haja descoberta, continuamos sendo o resultado do que passamos, do que vivemos, aprendemos, concordamos, discordamos, etc.
Já parou pra pensar no que você sabe?
Pois é.
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