August 2, 2010 por Willian
Certo, aqui vamos nós de novo não?
Essa será a minha resenha de Dragões de Éter: Corações de Neve, do Raphael Draccon.
Estava em minha lista faz tempo. O Raphael até me cobrou a leitura do livro; mais de uma vez.
Raphael, meu nobre, sei que você vai ler isso aqui. Aviso que vou tomar a liberdade de chamá-lo, na maioria das vezes, pelo primeiro nome. A leitura, enfim saiu… A resenha também. Espero que goste. Um grande abraço.
Resenha – Dragões de Éter: Corações de Neve – Autor: Raphael Draccon

Certo, essa resenha pode conter um ou mais spoilers e como talvez ela seja BEM longa, então, para você que não quer estragar a surpresa (ou não quer ler muito), aqui vai um Q&A rápido:
- O livro é bom?
- Sim.
- Você recomenda?
- Absolutamente.
- Preciso ler o anterior para ler este aqui?
- Não, mas se tiver lido vai ser BEM melhor.
- As histórias continuam?
- Sim e não. Elas continuam, mas se você não leu o anterior vai ter uma boa idéia do que aconteceu e não terá problemas para entender. Além do mais, existem histórias novas.
- É um livro infantil?
- Não.
- Infanto-Juvenil?
- Também não. (Embora a classificação literária correta seja essa)
- Que tipo de livro é?
- Daqueles que te fazem sonhar.
- Livros para adultos?
- Para qualquer pessoa. Para quem puder se permitir sonhar; seja pela primeira vez ou depois de muito tempo sem se lembrar como se sonha.
- É um livro para meninas?
- Sim.
- É um livro para meninos?
- Sim.
- É um livro sobre amor?
- Sim.
- É um livro sobre guerra?
- Sim.
- Se é isso tudo, o que ele não é?
- Uma oportunidade a ser desperdiçada.
- Vale à pena comprar?
- Sim. Mas compre dois. Um para você e outro para dar de presente. Não será apenas um presente, mas uma ação que pode mudar a vida de alguém.
E se você não quer ler spoilers, melhor parar por aqui. Pois demônios de Aramis sobrevoam nossas cabeças, reuniões secretas são realizadas, grupos voltam a se organizar e é agora, meus amigos, que a caça às bruxas voltará…
Se alguém aqui se lembra, eu já havia feito uma resenha do primeiro volume dessa saga, lançado, na época, pela Planeta. Essa resenha pode ser encontrada aqui.

Essa edição, a da Planeta, ficou para colecionadores. Hoje, todas as versões serão lançadas pela Leya, incluindo o primeiro livro, a ser relançado em breve.
Para aqueles que têm o primeiro livro, como eu, considerem-se sortudos e felizes. Vocês viram nascer uma estrela e isso, gente, é história.
Na minha primeira resenha falei como Raphael escrevia bem e como havia conseguido dar uma levantada na literatura de fantasia nacional. Depois dele vieram outros, mais notadamente Leandro Reis “Radrak” e Eduardo Spohr (pesquisem no Google).
Fantásticos escritores do fantástico. Leiam, leiam ambos… Mas hoje não vamos falar só de fantasia, vamos falar também de sonhos… E, para sonhos, hoje no Brasil, só existe um nome: Draccon.
Não quero que essa resenha seja aquele tipo de texto chato, crítico, que fala da Jornada do Herói, das Viradas Textuais, Argumentos Cíclicos e tudo mais. Para aqueles que querem ler sobre isso, vou fazer a lá Ariane Narin, vou mandar “na lata”: Está tudo lá. Tudo. Certinho. Metricamente, ritmicamente, tudo. E, não, senhores espertinhos, não vamos voltar nesse assunto mais. O livro é tecnicamente inquestionável. Se alguém duvida, vá ler e comprove por inteiro.
Por onde começar?
Pelo sonho, é claro. Afinal, tratamos de sonhos aqui.
Então, amigo Leitor, esvazie sua mente, me dê sua mão e vamos dançar. Pois a música já começou e não podemos deixar de bailar…
É assim que o livro te trata. Como em uma dança.
Algumas vezes frenética; noutras, mais lenta. Em alguns instantes, como em um romântico e belo dançar lento e suave, enquanto em outros, como em um verdadeiro show de rock, pesado, com o som sujo, barulhento.
E qual o motivo de comparar literatura com música?
Ora, ambas são expressões artísticas e, somente depois de experimentar, você entende o quão importante elas são.
Raphael nos dá isso. Mais uma vez.
E, gente, isso é mágico. Isso mesmo, mágico.
Mas vamos ser práticos, sim?
Se você procura um livro de romance épico, esse é o seu livro. Ah, você quer ação? Esse é o seu livro. Nada, você quer magia, é isso? É o seu livro então. Nada disso? Você quer uma boa luta de boxe? Adivinhe só! É o seu livro. Tudo bem, você não gosta disso, prefere política? Então, meu amigo, esse é o seu livro. Filosofia? É o seu livro! Ah tá, religião então… é… sinto muito… mas esse é o seu livro.
Sim, é difícil acreditar, mas é verdade.
Em menos de 500 páginas, e, por favor, não pense que isso é pouco, você encontra tudo que eu falei acima e ainda mais.
As referências são para pessoas dos 10 aos 80 anos. Você tem de Shakespeare a Che Guevara. Sai de Nirvana, passa por Jorge Amado e cai, de cabeça, em Loreena McKennitt.
E é incrível o timing, mas eu estava vendo/ouvindo o DVD Nights from the Alhambra quando comecei a ler o livro. E logo nas primeiras páginas, BAM, uma referência a Loreena McKennitt.
E não para por aí.
Para os entendidos, passaremos pela Noite Escura da Alma. Quem leu, sabe.
É para te deixar zonzo, meu amigo, muito zonzo. E fascinado. E você vai rir; acredite, você vai rir. E também irá chorar. Não metaforicamente, mas de verdade. Com lágrimas.
E o que faz um homem de trinta anos dizer isso? Ora, por ser verdade. Porque eu também chorei. E as lágrimas de um sonho não são lágrimas das quais se sente vergonha.
Alguns dias atrás, disse a uma amiga: “Sem as pessoas que fazem o que gostam, os sonhos começam a morrer. E sem sonhos, a vida perde o sentido.”
Mas isso deveria ser algo que todo mundo pensasse, não?
Raphael nos diz exatamente isso, afinal, “você precisa de um trabalho para sobreviver, mas você precisa de sonhos para viver”.
E não seriam os sonhos, o que de mais puro possuímos?
E não nos tornamos amargos e arredios, quando deixamos de sonhar?
“Ah, mas quero ver você falar de sonhos para a dona Flavonilda, que tem sete filhos para criar e é mãe solteira”.
“Ah, como você ousa vir falar de sonhos, para alguém que é excluído da sociedade?”
Sim, venho e ouso. Porque é preciso.
Os sonhos, que tocam o Éter na obra de Raphael, são o que de mais precioso possuímos.
Pois são também sonhos de liberdade, sonhos de uma vida melhor. Sonhos de que o bem vence o mal e espanta o temporal, como cantavam Gorpo e Dree Elle, no He-Man.
E Raphael toca nisso. Toca no sonho e na realidade. Na assustadora realidade do tráfico de drogas que mata tantos jovens e toca em Tropas de Elite. Em caçadores que, pelo poder que tem, podem acabar fazendo algo ruim com pessoas que não deveriam sofrer mais.
Ele levanta a questão que Allan Moore já havia levantado: “Quis custodiet ipsos custodes”, o bem e velho “quem vigiará os vigilantes”, que na visão Peter Parkiana seria o “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”. E, aqui, há de se ter um cuidado enorme, pois ele toca nas bases de política pública, segurança e cidadania. E toca bem.
Com metáforas, com imagens, mas com seriedade também.
Fala dos tempos de festa, onde o que importa é mostrar a “cidade limpa”, mesmo que, para isso, seja necessário varrer para debaixo do tapete um pouco da sujeira que – como todos sabem – existe em qualquer lugar.
E não é tão simples como um “bota na conta do papa”. Nunca é.
Ele fala de traição, da briga entre irmãos. Entre pai e filho. Mãe e filha. Amigos. Inimigos. Da briga física, da briga pela honra. Da briga retórica. Da luta por um ideal, por uma nação. Da luta por um sonho.
Falando assim, parece o supra-sumo da escrita. Não é. Como eu disse na primeira review, ele não é Shakespeare e não é Goethe. Não é Saramago. Mas agora volto a frisar o ainda.
Raphael melhorou demais a escrita. Muito mesmo.
Não que fosse ruim, na verdade era melhor do que a imensa maioria. Nacional ou não. E ele só não estourou como sucesso mundial, meus amigos, porque suas obras ainda estão em português.
Porque o primeiro livro é bom. Mas o segundo é incrível.
Melhor que Olimpianos.
Melhor que vampiros.
Não tenha dúvidas disso…
Claro que o livro tem falhas, foi feito por um ser humano. Mas qual o tamanho de uma falha para um livro como Dragões de Éter: Corações de Neve? Praticamente desconsiderável.
O livro merece ser bem tratado, pois nos trata bem também.
Desde citações de Romeu e Julieta, passando por koans e chegando a Gaiman, de quem sou fã assumido, o texto de Raphael vem fluído, fácil.
Pode parecer deslumbramento, mas somente uma mente sem preconceitos com a literatura, uma mente que permite que o onírico apareça, pode compreender o que digo.
E você irá chorar, e irá sofrer.
E verá os Mestres Anões, que são também pecadores em seus nomes, em uma performance para lá de Hollywoodiana. E você verá um coração se partir, em busca de cumprir uma obrigação, quando o amor falar mais alto e, ainda assim, a razão triunfar.
E você verá um menino se tornar homem. E, com isso, assumir todas as responsabilidades que um homem possui.
E esse menino-homem amará como somente um ser puro consegue amar. E sofrerá. E lutará. E sofrerá novamente. E triunfará. Porque somente o amor verdadeiro triunfa. E contos de fadas precisam de amores verdadeiros.
Raphael desconstrói, constrói, destrói e cria novamente. Afinal, “nem sempre os contos de fadas terminam com final feliz” é um alerta para ser guardado no coração.
E o tema recorrente é a figura de um Pai. De vários Pais. Daquele pai que te ama, que te faz sofrer, te faz chorar. Do Pai físico. Do Pai celestial.
Do pai que você ama.
E o último discurso de João Hanson é de partir um coração gelado.
E a visão de Robin Locksley, andando, de costas para o perigo, nos lembra Aragorn que ao nascer do sol, olhou para o oeste, para ver Gandalf aparecer, cavalgando junto aos Rohirrim.
E Arzallum apareceu.
E o livro é emocionante.
E fantástico.
E isso vindo de alguém que leu quatrocentas e noventa e quatro páginas em dois dias, e não parou de pensar na história, por um segundo sequer, deve significar alguma coisa.
Porque, se Raphael Draccon, como pessoa, for metade do que demonstra ser como escritor. Ele é o tipo de gente que você ia querer chamar de amigo.
Porque, ser apenas fã, já não é mais uma opção…
Agora é aguardar "Círculos de Chuva"… E que venha logo…
Então…
Que os seus heróis vivam mil anos, Raphael.
E parabéns.
March 17, 2010 por Willian
Sabe, não sou de reclamar.
Tá bom, sei que você já ouviu isso antes, talvez de outra pessoa, mas é algo esquisito. Isso de reclamação, eu digo.
Ora, não se faça de desentendido. Você sabe do que estou falando. Mas vamos lá, uma história foi o que prometi, não?
Então, eu estava nessa festa sabe? Medieval. Era perto de Boston, acho que comemoravam o dia de alguém da época de mil-quinhentos-e-alguma-coisa… ou seria de mil-e-quatrocentos-e-tanto? Não me lembro e, pra ser sincero, acho que não importa também…
Foi assim, lá estava eu, caneta na mão, bloco de papel na outra. Olhava tudo, prestava atenção e tentava anotar alguma coisa. A ordem havia sido clara. “Vá ao festival e faça uma matéria”
Matéria dos infernos, eu te digo, isso sim.
Bom, lá estava eu, sentado na sombra, vendo essa linda menina tocando violino. Sou mais uma guitarra, mas a moça não era qualquer uma. O som era fantástico e ela não parava entre as músicas, não dava pausa… Esquisito… Gostoso, mas esquisito…
Nessa hora, eu bem aproveitando, quando vem e senta um velho ao meu lado. Bela porcaria, não? Sol gigante brilhando no céu, um monte de lugar nas sombras para se sentar e o cara veio sentar do meu lado? E eu não estava nem um pouco com humor para companhia.
Pois é, eu me preparo para levantar e ir para outro lugar quando ouço a voz do velho.
“Fique aí, filho. Não vai querer perder essa moça tocando. Ela é fantástica.”
“É, eu vi. Mas preciso ir.”
“Não, você não precisa. Sente-se.”
Acho que foi o timbre da voz ou a firmeza, sei lá. Sei que encarei o velho, achei engraçado e acabei sentando novamente.
Por mais vinte minutos eu escutei a moça tocando. Não pareceu tanto. O velho só balançava a cabeça, vez ou outra grunhia e era isso. Preciso ser sincero aqui, eu praticamente nem notei que ele estava lá.
Ele estava certo, a moça era fantástica.
Quando ela parou de tocar, ninguém nem bateu palma. Acho que todos estavam boquiabertos com a apresentação ou não conseguiam se expressar.
Olhei em volta e, para meu espanto, ninguém prestava atenção. As pessoas só andavam de um lado para o outro. Aquilo me deixou meio possesso.
Não ligo muito pra isso de reconhecimento artístico e tudo mais. Acho mesmo é que todo mundo só quer ganhar o dinheiro e pagar as contas no fim do mês. Mas, ei! Aquilo ali era arte. Genuína. A coisa verdadeira.
“É, também não gosto quando não aplaudem”
“Como?” Perguntei, como se o velho tivesse ouvido meus pensamentos.
“Eu disse que também não gosto quando não aplaudem. Fosse outro eu não falaria nada, mas a menina tem talento. Ela toca com o coração.”
Pensei em uma resposta qualquer e em ir embora. Mas o velho tinha razão. Valia a conversa.
“Também acho, não é meu estilo, mas a garota é boa.”
Ele me olhou com um misto de dúvida, quase um ar de inquirir.
“Sim, ela é boa. Vamos, eu te pago uma bebida.”
“Ah, não obrigado. Eu não bebo.” – Mostrei o meu broche do AA – “Sete meses e contando. Um dia de cada vez.”
Ele deu uma risada.
“Tá bom, eu te pago uma água. Vamos caminhar. Meu nome é Stevie.”
Stevie, certo.
“Stevie, ahn? Paul.”
“Você é repórter, Paul?”
“Sim, por quê?”
“Notei o bloco e a caneta. Quer uma história para o seu jornal?”
Peguei a garrafa com água e ele alguma coisa escura em um copo que a atendente serviu.
“Claro, manda aí… alguma coisa vai explodir hoje? Alguém vai morrer?” Comecei a rir até encarar o velho e ver que ele me olhava, sem emoção alguma.
“Você sempre brinca com as notícias, filho?”
Isso de ele me chamar de filho toda hora era desagradável. Resolvi pelo ar sério do jornalista.
“Não, o que você tem?”
“Hoje é dia de São Patrício, você sabia?”
“Não”
“Pois é filho, é por isso que está acontecendo esse festival. É um festival para comemorar a Irlanda e, com isso, o medievalismo que vocês não tiveram aqui na América.”
“O senhor é Irlandês?”
Ele riu alto.
“Não mesmo, graças aos céus. Nada de ouro no fim do arco-íris de onde eu venho. Mas então, hoje, as três e trinta e três da tarde, a catedral metropolitana de Saint Patrick, em Nova York, irá explodir. Você não dirá nada para ninguém, porque não acreditará em mim. Mas nos encontraremos novamente e, quando isso acontecer, você irá acreditar.”
“Espere, terrorismo? É isso?”
“Não, claro que não. Vão alegar que foi por causa do gás, não vão encontrar vestígios de nada. Ninguém saberá o motivo, mas você saberá que eu te contei.”
“Por quê?”
“Porque preciso que você acredite e não tenho tempo para outros métodos. Aproveite sua água.”
“Ei, espere. Isso é sério? Isso da explosão?”
“Garoto, existem duas coisas falsas nessa situação toda. A primeira é o nome que te passei, você sabe que meu nome não é esse, e sabe que não vou te falar o meu nome verdadeiro.”
Ele tinha razão. Não acreditei no nome desde o instante em que o ouvi.
“E qual a segunda coisa?”
“Esse festival, na época em que as coisas aconteciam mesmo, quinhentos ou seiscentos anos atrás, não era assim. Especialmente o cheiro. Fedia muito mais, acredite, fedia demais. Não era nada tão limpo ou organizado e, naquela época, as fezes ficavam no meio de todo mundo.”
Era óbvio aquilo. Não entendi a ligação.
“E porque diz isso?”
“Porque eu estava lá e me lembro. Até outra hora, Paul.”
O velho caminhou em meio as outras pessoas e desapareceu.
Olhei no meu relógio, eram três e vinte e cinco.
Resolvi ir ao banheiro.
As três horas e quarenta minutos, naquela tarde, vi na televisão uma chamada especial da CNN. Havia acabado de acontecer uma explosão na Catedral de Saint Patrick, em Nova York. Pelo jeito, havia sido um vazamento de gás.
Olhei para a garrafa de água, ainda na minha mão.
“Merda”
January 4, 2010 por Willian
Em um bar, numa grande capital, em algum lugar do mundo:
“Sabe, não reclamo do meu trabalho. É um trabalho, ele precisa ser feito e, você entende o que dizem: alguém precisa fazer, não é?
Outro dia, um homem estava chorando quando fui até ele. O cara era a bola da vez, um tipo grandão, sabe? Coisa de quase dois metros de altura, forte, músculos demais eu diria. Mas chorava, chorava muito. Encolhido em um canto, você nunca diria que ele seria capaz de chorar até soluçar. Ou de quebrar a cabeça de alguém com um pedaço de madeira. Vai entender…
- Não, não… Ele dizia. Implorava até…
Não posso ceder às tentações. Faz parte do negócio, não se envolver emocionalmente. Mas eu gosto das histórias. Gosto de verdade.
- Tenho uma filha para criar, por favor…
- Tenho que cuidar da minha mãe, não faça isso…
- Tenho de juntar esse dinheiro, é para minha casa…
Mas os melhores são os [......] [Para continuar lendo, clique aqui]
November 26, 2009 por Willian
Pessoal,
Era para esse (LONGO) texto ter saído ontem, mas o meu Office não ajudou e hoje, apesar dos incansáveis e incessantes esforços do meu teclado do Mal em me atrapalhar, criei um pouco do ânimo para expurgar esse texto da minha cabeça.
(ao som de Metallica, of course)
O que vou dizer não é novidade. Está em vários sites pela internet e é exaustivamente explicado em livros sobre escrever.
Então, vou usar as palavras de um amigo para começar. Quando falamos de produção literária e textos novos, ele sempre me diz o seguinte: “Sabe, a porcaria é que a gente sempre quer escrever um best-seller logo de cara”.
Sim, queremos. Mas para isso existe solução.
Como uma amiga (meio desaparecida) e instrutora dizia: “só escreva”. O engraçado é que eu já vi gente do nível de Stephen King e Neil Gaiman dizer a mesma coisa.
Quando pedem um conselho aos dois sobre como escrever melhor, eles sempre tem uma ou outra dica, mas quando a pergunta é sobre como se tornar um escritor, a reposta não muda: só escreva. Uma palavra após a outra.
É claro que sempre tem as tradicionais, e incansáveis, frases prontas:
- Você precisa ler muito.
- Você precisa conhecer o seu público.
- Já sabe qual o seu mercado? A sua obra tem que ser vendável. (isso se você quiser ser publicado comercialmente)
- Você tem que fazer uma boa pesquisa.
- Sua obra tem que ser atraente, etc.
Mas, lembre-se, em algum momento sua preciosidade precisará ficar pronta. Então voltamos ao conselho inicial: escreva.
Somos, a maioria de nós escritores e pretendentes a escritores, procrastinadores por natureza. A gente enrola, deliberadamente.
Reclamamos do dia, do tempo, da falta de tempo, do teclado (mea culpa), do software de escrever (mea culpa 2), da falta de inspiração, da incredulidade quanto ao nosso trabalho, da quantidade de pesquisa que precisamos fazer e de mais um milhão de coisas.
A gente se acomoda, inventa desculpas, fica o dia todo fazendo um monte de coisas e não fazendo nada ao mesmo tempo. No fim, você vê que seu trabalho não andou tanto quanto queria e, algumas vezes, se pergunta o motivo.
Existem alguns corajosos que dizem “não escrevi, pois estava com preguiça/pois não queria”. A maioria de nós não tem coragem de ser tão sincero.
O que fazer então?
Usando as palavras de Neil Gaiman de novo: escreva.
Nos dias bons, você escreve. Nos dias ruins, você também escreve. Nos dias inspirados, escreva. E naqueles malditos dias em que o cursor fica pulsando na página branca, na sua frente, você precisa ter em mente que deve fazer uma coisa: escrever.
Afinal, é o que um escritor faz; escrever.
Nos dias bons, ruins, alegres, tristes, enfim, em todos os dias.
Conforme uma colega me perguntou “mas e os problemas no roteiro?”. Problemas com o roteiro aparecerão, você irá corrigi-los depois.
Outra pergunta boa foi “mas como saber se estou indo pelo caminho certo?”. Essa é mais fácil, enquanto você estiver escrevendo você está indo pelo caminho certo.
Claro, planeje, organize, pesquise, mas escreva. Não pare de escrever.
Na minha opinião, toda história tem potencial para se tornar uma boa história. Depende de quem conta e de como conta.
Nem todos os seus textos serão publicáveis, claro. Mas conta a experiência, conta o esforço. Você pode não perceber, mas cresce um pouco a cada palavra colocada no papel.
Todo mundo fala, por exemplo, da sumidade que foi Tolkien. Só que a maioria se esquece que ele também teve problemas. Quando ele escreveu “Numa toca no chão vivia um Hobbit”, a frase inicial – e provavelmente a mais famosa – de O Hobbit, ele não conseguiu terminar o livro. Isso foi em 1929 (aproximadamente). O Hobbit foi terminado somente sete anos depois (1936), a pedido de uma editora que leu uma parte do material inacabado. O Senhor dos Anéis – sua obra prima – demorou outros longos dezoito (18!!!) anos para ser publicado.
É óbvio que estamos falando de um escritor exímio, alguém que desenvolveu um mundo novo, com linguagem própria, raças e, a bem da verdade, foi a base para muito da fantasia fantástica existente hoje.
Ainda assim, fica a lição. Todo mundo tem dúvidas se está no caminho certo. O que importa é continuar.
Outra colega me disse “parece que algo se quebrou dentro de mim, não consigo escrever”.
E isso não faz parte da criação? Você doa sua energia, seu intelecto, seu esforço, o natural não é sentir que está meio “esgotado”? Sabe o que eu disse a ela? “Continue escrevendo”.
E isso, segundo ela, a ajudou.
E foi exatamente ouvindo o mesmo conselho, alguns anos atrás, que consegui terminar um texto com mais de duzentas páginas.
A história foi contada? Ah, sim. Definitivamente foi.
O material ficou bom? Tenho sérias dúvidas sobre isso. Mas a história foi contada e essa era a parte importante.
Como disse, nem tudo que escrevemos é publicável, mas quando escreve, você cresce.
E lembre-se que o seu editor interior sempre vai querer que você revise, corte, altere, melhore o seu texto.
Isso não é ruim, só que tem hora certa para acontecer.
Quando? No momento em que você colocar o último ponto final no texto, você conseguirá responder a essa pergunta.
Mas não edite enquanto cria. Misturar trabalho criativo com trabalho crítico nunca foi uma idéia bem aceita (ou bem sucedida).
Provavelmente você não vai acreditar e vai querer editar o seu texto enquanto escreve. Vá em frente, muita gente aprendeu desse jeito. Batendo a cabeça.
Mas lembre-se, mesmo com dúvidas sobre o roteiro, não sabendo se está bom ou não, achando que algo se perdeu e que não consegue criar mais, só existe uma coisa que você pode fazer: continuar escrevendo.
Faça isso por um tempo.
Se não funcionar, me escreva. Gostaria de ouvir sua experiência.
Agora, se funcionar, apenas dê um sorriso. Se você conseguiu, o mérito é todo seu.
Aproveite.
November 5, 2009 por Willian
Ok guys,
Reading The Hectic Attic (again, yes, I´m a fan), I found a text that Neil Gaiman wrote for the nut-crazy-mad people who decided to get into all this NaNoWriMo thing.
Here is the text:
Dear NaNoWriMo Author,
By now you're probably ready to give up. You're past that first fine furious rapture when every character and idea is new and entertaining. You're not yet at the momentous downhill slide to the end, when words and images tumble out of your head sometimes faster than you can get them down on paper. You're in the middle, a little past the half-way point. The glamour has faded, the magic has gone, your back hurts from all the typing, your family, friends and random email acquaintances have gone from being encouraging or at least accepting to now complaining that they never see you any more—and that even when they do you're preoccupied and no fun. You don't know why you started your novel, you no longer remember why you imagined that anyone would want to read it, and you're pretty sure that even if you finish it it won't have been worth the time or energy and every time you stop long enough to compare it to the thing that you had in your head when you began—a glittering, brilliant, wonderful novel, in which every word spits fire and burns, a book as good or better than the best book you ever read—it falls so painfully short that you're pretty sure that it would be a mercy simply to delete the whole thing.
Welcome to the club.
That's how novels get written.
You write. That's the hard bit that nobody sees. You write on the good days and you write on the lousy days. Like a shark, you have to keep moving forward or you die. Writing may or may not be your salvation; it might or might not be your destiny. But that does not matter. What matters right now are the words, one after another. Find the next word. Write it down. Repeat. Repeat. Repeat.
A dry-stone wall is a lovely thing when you see it bordering a field in the middle of nowhere but becomes more impressive when you realise that it was built without mortar, that the builder needed to choose each interlocking stone and fit it in. Writing is like building a wall. It's a continual search for the word that will fit in the text, in your mind, on the page. Plot and character and metaphor and style, all these become secondary to the words. The wall-builder erects her wall one rock at a time until she reaches the far end of the field. If she doesn't build it it won't be there. So she looks down at her pile of rocks, picks the one that looks like it will best suit her purpose, and puts it in.
The search for the word gets no easier but nobody else is going to write your novel for you.
The last novel I wrote (it was ANANSI BOYS, in case you were wondering) when I got three-quarters of the way through I called my agent. I told her how stupid I felt writing something no-one would ever want to read, how thin the characters were, how pointless the plot. I strongly suggested that I was ready to abandon this book and write something else instead, or perhaps I could abandon the book and take up a new life as a landscape gardener, bank-robber, short-order cook or marine biologist. And instead of sympathising or agreeing with me, or blasting me forward with a wave of enthusiasm—or even arguing with me—she simply said, suspiciously cheerfully, "Oh, you're at that part of the book, are you?"
I was shocked. "You mean I've done this before?"
"You don't remember?"
"Not really."
"Oh yes," she said. "You do this every time you write a novel. But so do all my other clients."
I didn't even get to feel unique in my despair.
So I put down the phone and drove down to the coffee house in which I was writing the book, filled my pen and carried on writing.
One word after another.
That's the only way that novels get written and, short of elves coming in the night and turning your jumbled notes into Chapter Nine, it's the only way to do it.
So keep on keeping on. Write another word and then another.
Pretty soon you'll be on the downward slide, and it's not impossible that soon you'll be at the end. Good luck…
Neil Gaiman
And here is the link, just click here.
Credits goes to The Hectic Attic, where I first saw this text.
Have fun!