Jul 04 2008

Quase

Escrito por Willian em Pergaminhos

Manoel estava sentindo frio, mesmo com a grossa blusa de lã que vestia. Havia tomado um pouco de chuva e suas mãos estavam muito machucadas e sujas. A carne pulsava e o cheiro de sangue se secando tomava o ambiente.

 

O local também não ajudava, um minúsculo casebre de madeira perdido no meio da Mata Atlântica. Sem energia elétrica, sem água encanada, sem mantimentos, sem nada.

 

Abandonado à sorte que Deus – ou que o Diabo – quisesse dar.

 

Mas ele não se importava com nada disso.

 

Aquele lugar um dia fora do seu pai e, naquela época, era muito bem cuidado. Mas neste mundo sem justiça, ali era o único local onde Manoel conseguia se sentir quase em paz. Quase sempre ia lá quando era criança e, um dia, quase decidiu que seria feliz ali.

 
E ele estava feliz.
 

Olhando para fora, quando já começava a ficar escuro, teve a impressão de que a noite traria mais beleza para sua vida miserável.

 

Era contador, trabalhava em uma empresa de médio porte e estava pagando o apartamento. Sua esposa, Judite, chamava o local de cafofo. Ele preferia chamá-lo de ninho de amor.

 
Manoel era um cara de sorte.
 

Como ele poderia reclamar da vida? Tinha um emprego quase bom, o seu carro era uma pick-up Saveiro que era quase nova, morava em um apartamento que era quase bonito e era casado com uma mulher que era quase perfeita – mas que ele amava à perdição.

 

Sua vida poderia ser quase melhor, pelo menos ele pensava assim.

 

Mas a reclamação nunca foi o forte de Manoel e ele não podia fazer outra coisa além de deixar passar.

 

“Muitas decisões geram muitos problemas, e quem gosta de problemas, não é mesmo?”

 
Esse era o seu lema.
 

Melhor continuar vivendo e deixar uma oportunidade passar, do que gerar um problema.

 
E para ele, viver era quase bom.
 
 
 

Quando a noite chegou, ele foi até o quarto, abriu o caixão ainda sujo de terra, onde estava o corpo da esposa – atropelada no dia anterior – e se sentou lá dentro.

 

- É Judite – disse ele – aqui quase que cabe nós dois, né?

 

Ele se ajeitou um pouco melhor, segurou a tampa do caixão com a mão esquerda, se abaixou desconfortavelmente e beijou a testa da esposa.

 

- Boa noite querida, durma com Deus.

 

Dito isso, ele se levantou um pouco novamente, tirou o revólver 38 – que herdou do pai – da cintura da sua calça, apontou para sua cabeça e puxou o gatilho.

 

Judite nunca reclamou do peso do corpo dele sobre o seu, e Manoel estava quase sorrindo.

 
E assim eles dormiram para sempre, quase felizes.
 

 

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Jun 13 2008

A vida é assim

Escrito por Willian em Pergaminhos

 

A tarde estava quente do lado de fora do escritório da Wolfen & Littis Advogados Associados. Andrew estava pensando na sua vida, enquanto tomava Whisky no seu escritório no décimo terceiro andar. O gelo já começava a derreter, mesmo com o ar condicionado da sala ligado ao máximo. Sua vida começava a derreter também, como o gelo.

 

- É uma merda mesmo, uma grande merda. – Peter entrou xingando pela porta.

 

Andrew passou a mão esquerda na testa e continuou olhado para o seu copo.

 
- O que é dessa vez, Peter?

- Descobri que minha esposa está me traindo, Andy. Parei na porta de casa hoje e vi outro homem lá dentro. Com ela. Sozinho!

- Tá, e?

- Como assim “e”? Eu vou matar o filho da puta, vou matar o desgraçado.

- Sei. – Andy se mostrou desinteressado

- Seu Viado! Eu chego aqui, conto que minha mulher tá me traindo e você nem se mexe? Que porra de amigo é você?

- O que espera que eu faça? Que te diga para pegar uma arma e ir atrás dele? Ou dela?

- E não é isso? Eu sou corno, seu puto. Ouviu? Corno! Teu amigo é corno!

 

Andrew suspirou e tomou mais um gole, enquanto Peter andava de um lado para outro batendo as mãos na cabeça.

 

- Sabe – começou Andrew – eu acho que você devia deixar pra lá. Você nem tem provas. Isso de vingança não vai dar certo. Acho realmente que não vale à pena. Se ela te traiu, então parte pra outra.

- Mas… mas… eu não consigo viver sem ela. Eu amo aquela vagabunda.

- Então esqueça, passe por cima. Se aconteceu, é porque seu casamento não estava lá essas coisas.

- Que porra, Andy! Eu não quero passar por cima! Não vou ser um corno manso! Tá me ouvindo? Não vou!

- E vai fazer o que? Matar o cidadão? Vai preso? Pegar perpétua? Desistir do seu salário anual de seiscentos mil dólares? É isso que você quer? – Andy deixou o copo em cima da mesa e olhou diretamente nos olhos de Peter – É realmente ISSO que você quer?

- Não, quer dizer, sei lá. Quero fazer alguma coisa.

- Compre uma bicicleta.

- Quê? Comprar uma bicicleta? Tá me gozando?

- Você sabe que eu nunca brinco Peter, nunca.

- Puta que pariu! Eu falando contigo e você me fala pra comprar uma bicicleta? Vai tomar no…

- Opa! Cuidado, não é comigo que você está nervoso. Essa briga não é minha.

- Mas, ah, merda! Que porra, Andy! Você me fala isso de bicicleta? Tu não é amigo não cara, não é mesmo!

- Primeiro, um advogado criminal que ganha tanto quanto você não deveria falar, e tampouco agir, como os malandros que você defende. E, só para variar, eu estou certo; se você comprar uma bicicleta, vai ter que ir até a loja aqui do lado, vai conhecer uma atendente, comprar uma bicicleta, vai embora pedalando, enquanto esfria a cabeça. Do jeito que você está, não vai conseguir nada do que quer. – Disse Andrew sorrindo, um sorriso sarcástico e maldoso.

- E quem disse que eu quero esfriar a cabeça? Quer saber, vou pra casa agora.

- Tudo bem, boa sorte. – Andrew virou-se de costas para a porta e, pela janela, ficou observando o fim de tarde que se aproximava.

 

Peter saiu da sala batendo a porta e disparando grosserias para quem estivesse olhando para ele. Andrew suspirou novamente, aquele estava sendo um dia difícil.

“Decisões, decisões, sempre decisões” - Andrew pensou por um momento, colocou a mão no telefone sobre sua mesa e discou um número.

 

- Marilyn Kate Jones e Associados, aqui fala Betty, como posso ajudá-lo?

- Betty, aqui é Andrew Wolfen, me deixe falar com a Marilyn, por favor.

- Claro senhor Wolfen, já vou transferir.

 

Andy pensou se aquela era a decisão certa, se ele não estava se precipitando; ainda assim, na posição que ele ocupava, não podia se dar ao luxo de se enganar ou de deixar que alguma coisa atrapalhasse o seus planos. Uma voz feminina atendeu do outro lado.

 

- Ora, ora, se não é o senhor Andy Wolfen. Como posso ajudá-lo?

“Ironia” – Pensou ele – “Eu gosto disso”.

- Olá Marilyn, tudo bem?

- Sim, comigo sim, mas estou curiosa, o que o dono do maior escritório de advocacia de Pittsburgh quer falar com uma pequena advogada criminal?

- Você não é somente uma pequena advogada criminal, é exatamente do tamanho que eu preciso e quero comprar sua empresa. Quero que trabalhe para mim. – Andy ouviu uma risada do outro lado.

- Mas você tem uma equipe toda formada, e o seu advogado principal é muito bom. Todo mundo conhece Peter Littis, aliás, todo mundo tem medo dele. O que você quer comigo?

 

Andy sentiu uma ponta de sarcasmo do outro lado da linha, não ia ser fácil.

 

- Que tal assim, Marilyn, vamos jantar hoje? Pode ser? Às nove da noite, no Kiku.

 
Silêncio do outro lado da linha.
 
- No Kiku, você disse?
- Sim, exatamente.

- Você sabe vai precisar de reservas, certo Andy? Você está brincando comigo ou só quer me impressionar?

- Eu nunca brinco, Marilyn, nunca.

 

Após um pouco de hesitação, um suspiro do outro lado da linha.

 
- Tudo bem, as nove então.
 

Andy colocou o telefone no descanso sobre sua mesa e pegou seu celular. Discou outro número.

 

- Sim? – Uma voz grossa atendeu do outro lado.

- Peter Littis. – Disse Andrew, bem pausadamente.

 

Após alguns segundos, ouviu a respiração do outro lado.

 
- Considere feito.
 
Andy desligou novamente.
 
***
 

Andy saiu de seu escritório e foi andando até o escritório de Peter. Abriu a porta, entrou e ao fechá-la viu que o local estava vazio. O local cheirava a álcool. A porta do pequeno refrigerador sob a mesa estava aberta.

Caminhou até a escrivaninha do seu sócio e viu que sua secretária eletrônica estava piscando. Apertou o botão.

 

- Peter, querido… Sei que não quer falar comigo… olha… preciso te explicar… Ai Peter… o homem que você viu comigo… bem… ele era um médico, eu estava fazendo uma consulta particular, fora do horário, aqui em casa… Sei que deveria ter te falado… mas… Peter… oh Peter… Eu estou grávida! Nós vamos ter um bebê… Eu te amo Peter…

 

Um sinal indicava o final da gravação.

 

- É Peter, a vida é assim. Que pena.

 

Andy olhou, pela janela, para o horizonte; caminhou de volta até a porta e saiu do escritório.

 
***
 

DIÁRIO DE PITTSBURGH: (foto de um carro negro com chamas em volta e bombeiros no local) - O advogado criminal Peter Littis veio a óbito ontem à noite enquanto voltava para sua casa. Ao que parece, outro carro em alta velocidade bateu contra ele e fez com que ele perdesse o controle de sua Mercedes. Os policiais encontraram vestígios de álcool no corpo do advogado e garrafas vazias de vodka dentro do carro. Sua esposa Emily foi internada às pressas quando soube da notícia. As informações são de que ela perdeu o bebê de seis semanas que carregava. Peter tinha trinta e nove anos, e será velado na Igreja Batista, onde era membro ativo. A polícia continua procurando pelo outro carro envolvido no acidente.

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Jun 05 2008

Pensar

Escrito por Willian em Pergaminhos

 

Então,
 

Esses dias eu andei discutindo sobre direito autoral, capacidade de escrita, ghostwritting e definição/diferenciação entre qualidade x gostar.

Algumas coisas me cansam.

O argumento “eu não gosto, então não presta” é um deles.

Julgar a qualidade de algo tendo como parâmetro sua visão é aceitável, até compreensível; afinal, quem define a qualidade de algo são os olhos de quem vê. O que eu acho com qualidade, pode não chegar ao seus parâmetros.

Tudo bem.

Agora, forçar essa visão como resultado óbvio de um pensamento linear é outra coisa.

Veja só, como eu disse um dia desses, um argumento apaixonado não faz uma coisa melhor ou pior. É só uma opinião.

Dessa forma, leva vantagem quem tem facilidade com a palavra.

Uma argüição bem feita pode induzir ao erro por retórica. É um sofisma. Uma verdade aparente que esconde uma falácia.

Sei lá, não é pra ser teórico.

Vejo assim: Você defender o que pensa é aceitável e, em um debate, é essencial que você esteja convencido do que acredita; não usando o famigerado “por que eu acho que é assim”, mas com argumentos passíveis de questionamento e de uma forma de manutenção dos mesmos.

Senão complica.

Repensar um pensamento é louvável.

Deixar uma opinião como se fosse um deus desmistificado por outra que parece melhor, não é sinal de humildade. Chegar a uma conclusão próxima, depois de um questionamento interior, pode até ser.

Pensar é opcional.

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May 15 2008

Biografia de um Zé Ninguém. (Podia ser você!)

Escrito por Willian em Pergaminhos

 

Eu quis um mundo novo.

Um mundo onde não fosse julgado pelo que produzo, ou pelo que tenho. Um mundo onde o que eu sou fosse suficiente. Um mundo onírico, rico e verdadeiro. Um sonho.

Encontrei um mundo que exige esforço, que existe hoje e exige uma posição.

Fiquei em cima do muro, como muitos. Por opção.

No começo foi bom, vi os dois lados. Acompanhei as mudanças que aconteciam e não tive que tomar partido em nada. Aprendi.

Fiquei em dúvida e achei que meus sonhos fossem realmente o que eu queria. Quais são os seus sonhos? Quem é você?

Queria um castelo, um carro importado, um apartamento e uma pizza de bacon.

Queria ser diplomata, juiz, agente secreto, policial, piloto, promotor e empresário. Queria ser Chef, queria saber cultivar uma planta. Queria dirigir um F-1. Queria ser Rei, príncipe e valete. Saber de música, tocar um violino como a voz de um anjo e um violão como o Jack Jhonson.

Queria falar Japonês, Alemão, Francês, Russo, Latim, Italiano e Esperanto. Isso porque eu nem sei se Esperando se “Fala”. Ainda assim, queria.

Entender de vinhos e queijos, de livros e bocejos. Ler a língua das estrelas, escrever na areia e ver a alma das pessoas. Queria saber que o amanhã sempre é melhor. Será que é?

Queria muita coisa.
Não consegui nem a pizza.

Claro que a culpa foi minha, eu me acomodei, me acostumei, achei que estava bom.

Quem já não pensou que o que tinha era suficiente, que esse desejo de mais era pernicioso? “Ah! Desse jeito está bom. Tô melhor que muita gente”. Balela.

Querer mais realmente não é certo, mas também não é errado. É querer. Desejo. Vontade. Pura e simplesmente. Sem demônios, sem anjos. É querer.

Nem todos nascem para ser budistas.

Sou mais um comum indefinido, mais um cheio de dúvidas e sem respostas.

Ou pior.
Com respostas e sem coragem.

Onde está a motivação? O que faz alguém ir em frente? O que provoca as mudanças?

Você não acha que poderia ser melhor? Que merecia ser melhor?

“O que te impede?” – Essa é a pergunta, minha pergunta. Para mim, para você. Para todos.

O que te impede?

Sem esforço, foco e trabalho não existe evolução. Ah!, mas cansa tanto! E como é bom ficar na berlinda do comodismo e da preguiça. Ah, é.

É?
O que te motiva?
O que me motiva?

Dúvidas, respostas e mais dúvidas. Não existem mudanças. Só tristeza e dúvida.

E a vida continua, como se nada tivesse acontecido.

Sem respostas ainda

May 06 2008

Tempos virão…

Escrito por Willian em Pergaminhos

Já dizia a sabedoria popular, nada está tão ruim que não possa piorar.

 

When the senses are shaken, and the soul is driven to madness,
Who can stand?

When the souls of the oppressed fight in the troubled air that rages,
Who can stand?

 

Tempos virão, melhores para uns, piores para outros.

E nem vai ser o apocalipse ainda.

Sem respostas ainda

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