A tarde estava quente do lado de fora do escritório da Wolfen & Littis Advogados Associados. Andrew estava pensando na sua vida, enquanto tomava Whisky no seu escritório no décimo terceiro andar. O gelo já começava a derreter, mesmo com o ar condicionado da sala ligado ao máximo. Sua vida começava a derreter também, como o gelo.
- É uma merda mesmo, uma grande merda. – Peter entrou xingando pela porta.
Andrew passou a mão esquerda na testa e continuou olhado para o seu copo.
- O que é dessa vez, Peter?
- Descobri que minha esposa está me traindo, Andy. Parei na porta de casa hoje e vi outro homem lá dentro. Com ela. Sozinho!
- Tá, e?
- Como assim “e”? Eu vou matar o filho da puta, vou matar o desgraçado.
- Sei. – Andy se mostrou desinteressado
- Seu Viado! Eu chego aqui, conto que minha mulher tá me traindo e você nem se mexe? Que porra de amigo é você?
- O que espera que eu faça? Que te diga para pegar uma arma e ir atrás dele? Ou dela?
- E não é isso? Eu sou corno, seu puto. Ouviu? Corno! Teu amigo é corno!
Andrew suspirou e tomou mais um gole, enquanto Peter andava de um lado para outro batendo as mãos na cabeça.
- Sabe – começou Andrew – eu acho que você devia deixar pra lá. Você nem tem provas. Isso de vingança não vai dar certo. Acho realmente que não vale à pena. Se ela te traiu, então parte pra outra.
- Mas… mas… eu não consigo viver sem ela. Eu amo aquela vagabunda.
- Então esqueça, passe por cima. Se aconteceu, é porque seu casamento não estava lá essas coisas.
- Que porra, Andy! Eu não quero passar por cima! Não vou ser um corno manso! Tá me ouvindo? Não vou!
- E vai fazer o que? Matar o cidadão? Vai preso? Pegar perpétua? Desistir do seu salário anual de seiscentos mil dólares? É isso que você quer? – Andy deixou o copo em cima da mesa e olhou diretamente nos olhos de Peter – É realmente ISSO que você quer?
- Não, quer dizer, sei lá. Quero fazer alguma coisa.
- Compre uma bicicleta.
- Quê? Comprar uma bicicleta? Tá me gozando?
- Você sabe que eu nunca brinco Peter, nunca.
- Puta que pariu! Eu falando contigo e você me fala pra comprar uma bicicleta? Vai tomar no…
- Opa! Cuidado, não é comigo que você está nervoso. Essa briga não é minha.
- Mas, ah, merda! Que porra, Andy! Você me fala isso de bicicleta? Tu não é amigo não cara, não é mesmo!
- Primeiro, um advogado criminal que ganha tanto quanto você não deveria falar, e tampouco agir, como os malandros que você defende. E, só para variar, eu estou certo; se você comprar uma bicicleta, vai ter que ir até a loja aqui do lado, vai conhecer uma atendente, comprar uma bicicleta, vai embora pedalando, enquanto esfria a cabeça. Do jeito que você está, não vai conseguir nada do que quer. – Disse Andrew sorrindo, um sorriso sarcástico e maldoso.
- E quem disse que eu quero esfriar a cabeça? Quer saber, vou pra casa agora.
- Tudo bem, boa sorte. – Andrew virou-se de costas para a porta e, pela janela, ficou observando o fim de tarde que se aproximava.
Peter saiu da sala batendo a porta e disparando grosserias para quem estivesse olhando para ele. Andrew suspirou novamente, aquele estava sendo um dia difícil.
“Decisões, decisões, sempre decisões” - Andrew pensou por um momento, colocou a mão no telefone sobre sua mesa e discou um número.
- Marilyn Kate Jones e Associados, aqui fala Betty, como posso ajudá-lo?
- Betty, aqui é Andrew Wolfen, me deixe falar com a Marilyn, por favor.
- Claro senhor Wolfen, já vou transferir.
Andy pensou se aquela era a decisão certa, se ele não estava se precipitando; ainda assim, na posição que ele ocupava, não podia se dar ao luxo de se enganar ou de deixar que alguma coisa atrapalhasse o seus planos. Uma voz feminina atendeu do outro lado.
- Ora, ora, se não é o senhor Andy Wolfen. Como posso ajudá-lo?
“Ironia” – Pensou ele – “Eu gosto disso”.
- Olá Marilyn, tudo bem?
- Sim, comigo sim, mas estou curiosa, o que o dono do maior escritório de advocacia de Pittsburgh quer falar com uma pequena advogada criminal?
- Você não é somente uma pequena advogada criminal, é exatamente do tamanho que eu preciso e quero comprar sua empresa. Quero que trabalhe para mim. – Andy ouviu uma risada do outro lado.
- Mas você tem uma equipe toda formada, e o seu advogado principal é muito bom. Todo mundo conhece Peter Littis, aliás, todo mundo tem medo dele. O que você quer comigo?
Andy sentiu uma ponta de sarcasmo do outro lado da linha, não ia ser fácil.
- Que tal assim, Marilyn, vamos jantar hoje? Pode ser? Às nove da noite, no Kiku.
Silêncio do outro lado da linha.
- No Kiku, você disse?
- Sim, exatamente.
- Você sabe vai precisar de reservas, certo Andy? Você está brincando comigo ou só quer me impressionar?
- Eu nunca brinco, Marilyn, nunca.
Após um pouco de hesitação, um suspiro do outro lado da linha.
- Tudo bem, as nove então.
Andy colocou o telefone no descanso sobre sua mesa e pegou seu celular. Discou outro número.
- Sim? – Uma voz grossa atendeu do outro lado.
- Peter Littis. – Disse Andrew, bem pausadamente.
Após alguns segundos, ouviu a respiração do outro lado.
- Considere feito.
Andy desligou novamente.
***
Andy saiu de seu escritório e foi andando até o escritório de Peter. Abriu a porta, entrou e ao fechá-la viu que o local estava vazio. O local cheirava a álcool. A porta do pequeno refrigerador sob a mesa estava aberta.
Caminhou até a escrivaninha do seu sócio e viu que sua secretária eletrônica estava piscando. Apertou o botão.
- Peter, querido… Sei que não quer falar comigo… olha… preciso te explicar… Ai Peter… o homem que você viu comigo… bem… ele era um médico, eu estava fazendo uma consulta particular, fora do horário, aqui em casa… Sei que deveria ter te falado… mas… Peter… oh Peter… Eu estou grávida! Nós vamos ter um bebê… Eu te amo Peter…
Um sinal indicava o final da gravação.
- É Peter, a vida é assim. Que pena.
Andy olhou, pela janela, para o horizonte; caminhou de volta até a porta e saiu do escritório.
***
DIÁRIO DE PITTSBURGH: (foto de um carro negro com chamas em volta e bombeiros no local) - O advogado criminal Peter Littis veio a óbito ontem à noite enquanto voltava para sua casa. Ao que parece, outro carro em alta velocidade bateu contra ele e fez com que ele perdesse o controle de sua Mercedes. Os policiais encontraram vestígios de álcool no corpo do advogado e garrafas vazias de vodka dentro do carro. Sua esposa Emily foi internada às pressas quando soube da notícia. As informações são de que ela perdeu o bebê de seis semanas que carregava. Peter tinha trinta e nove anos, e será velado na Igreja Batista, onde era membro ativo. A polícia continua procurando pelo outro carro envolvido no acidente.