Aug 15 2008

Quanto vale um pedido de desculpas? - Olimpíadas

Escrito por Willian em Amenidades

“- Foi mal. Peço desculpas. Podia ter sido mais, eu estou muito chateado. O meu total normal é maior que isso. Não sei o que faltou.(…)” – Wellison Silva – Levantamento de Pesos – Pequim – 2008

 

É assim, o atleta vai, se esforça, luta e no final, em um esforço para conseguir conquistar alguma coisa para o Brasil, ele erra.

Um erro – por mais que tenhamos a tendência de culpar quem errou – é algo natural,  que poderia ser visto como esforço maior ou apreensão. Mas não é essa a atitude que comove – a de errar. O que comove é o pedido de desculpas.

Agora me pergunto “como assim ele está pedindo desculpas?”

O Brasil é quem deveria pedir desculpas, isso sim. Não tem incentivo nenhum a nenhum esporte. Não, nem futebol, se foi o que você pensou.

Quem incentiva o futebol no Brasil são os clubes privados. Dinheiro, grana mesmo do Estado, não tem. Não é como se o Brasil fosse Cuba, Rússia, França ou os Estados Unidos. Aqui simplesmente não se incentiva o esporte. Não tem incentivo no futebol não. E não tem em nenhum outro esporte.

Nada, nem judô, vôlei, atletismo, nem nada.

O Brasileiro que ganha alguma coisa, em olimpíada, ganha na raça, no esforço. Ganha pelo amor ao esporte, pelo amor ao país. Não é como ter um super-atleta como o Phelps, é ganhar por querer ganhar, por querer se esforçar para chegar a algum lugar no pódio.

A lei de incentivo ao esporte é uma piada grosseira e mal contada.

Os atletas que conseguem, vão treinar fora. Competem no exterior, tentam ganhar algum dinheiro fazendo o que escolheram com amor e dedicação. Afinal, a vida do atleta é regrada com treinos, dietas, esforços, comportamento e muitas outras coisas.

Quem decide lutar para ter algum reconhecimento, para ser diferente e melhor no esporte que pratica, enfrenta a luta dentro e fora do caminho que escolheu. Enfrenta as dificuldades de treinar com qualidade e, em alguns casos, as dificuldades de não ter dinheiro pra sobreviver.

Mesmo a ginástica, uma das modalidades mais bem estruturadas do país, poderia ser melhor. Todos sabem que poderia. Mas, com esforços e sacrifícios das Danieles, Diegos e Jades, vai se levando como está.

A vergonha não é do atleta, é do país.

Assim, competir já é muito mais do que o esperado e os bronzes valem ouro. Então, Wellison, quem tem que pedir desculpas, não é você, somos nós.

Você foi melhor do que o Brasil merece.

Obrigado por ter se esforçado.

 

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Jul 18 2008

E a Polícia Federal morreu… Satiagraha

Escrito por Willian em Política

Eu não queria falar sobre esse negócio todo da Satiagraha – por uma questão pessoal – mas não vejo outra forma. Acho que tem besteira demais sendo falada por todos os lados.

Estão todos muito preocupados com o delegado, se ele disse isso, se fez aquilo, se não vai participar mais da investigação, se vai fazer festa de fim de ano, se vai ter árvore de natal, essas coisas.

Importância nacional, sem dúvida.

Mas veja só, o Gilmar Mendes, ministro presidente do STF, concedeu os dois Habeas Corpus para o Daniel Dantas, isso é fato. Aconteceu.

Claro que eu sou leigo, afinal, como eu – que não entendo nada de Direito ou do processo judiciário nacional – posso condenar que um cidadão, tão importante quanto qualquer brasileiro, consegue impetrar recurso diretamente na última instância do poder judiciário e sumariamente ignora todo o trajeto que qualquer outro brasileiro iria enfrentar. Afinal, ele é tão importante quanto qualquer brasileiro, não é?

Se todos são iguais perante a lei (CF - Art. 5º “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…” – grifo meu), então o Dantas é tão importante quanto qualquer um, logo – espera-se – que ele tenha que seguir o mesmo trâmite em processos judiciais que qualquer outro cidadão. Certo? Certo? Errado.

Dantas tem “facilidades”. O problema é a primeira instância. De Sanctis. De fato.

Todo regra, todo escopo, todo mentira, todo torto. Esse é o processo judicial brasileiro.

Mas o presidente – do Brasil, não do STF – acha que o delegado tem que se explicar, e diz isso pra nação, e depois a PF, instituição de proteção e investigação da república, divulga trechos da conversa, que o Queiroz quis sair, essas coisas. Claro, ele quis sim. Tanto quis, que questionou a fita.

Adultério. Adulterado. Tudo diferente do combinado.

E você duvida que os advogados do Dantas já não tiveram acesso ao processo? Porque ele continua calado? Porque não vendem Gol novo, na cor laranja? Laranja é algo tão comum hoje em dia…

Porque a imprensa está tão preocupada com o delgado delegado designado?

O foco é o Dantas, mas isso não parece importante.

O foco é a “BrOi”, o Opportunity. 1 bilhão de doletas. É isso.

Mas não, melhor pensar no cisma do judiciário. Davi x Golias. De Sanctis x Mendes. E não é que, ao que parece, o Davi ganhou de novo?

Mais de quatrocentas autoridades em ato de desagravo.

Morro de orgulho da Polícia Federal, mas o STF deixou a desejar.

Mas e o Dantas?

Por enquanto está tomando Clicquot Veuve, em uma de suas coberturas. Daqui um tempo ele vai tomar caipirinha, em ROMA.

 

 

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Jul 07 2008

Vontade

Escrito por Willian em Amenidades

A vontade é o combustível da ação.

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Jul 04 2008

Quase

Escrito por Willian em Pergaminhos

Manoel estava sentindo frio, mesmo com a grossa blusa de lã que vestia. Havia tomado um pouco de chuva e suas mãos estavam muito machucadas e sujas. A carne pulsava e o cheiro de sangue se secando tomava o ambiente.

 

O local também não ajudava, um minúsculo casebre de madeira perdido no meio da Mata Atlântica. Sem energia elétrica, sem água encanada, sem mantimentos, sem nada.

 

Abandonado à sorte que Deus – ou que o Diabo – quisesse dar.

 

Mas ele não se importava com nada disso.

 

Aquele lugar um dia fora do seu pai e, naquela época, era muito bem cuidado. Mas neste mundo sem justiça, ali era o único local onde Manoel conseguia se sentir quase em paz. Quase sempre ia lá quando era criança e, um dia, quase decidiu que seria feliz ali.

 
E ele estava feliz.
 

Olhando para fora, quando já começava a ficar escuro, teve a impressão de que a noite traria mais beleza para sua vida miserável.

 

Era contador, trabalhava em uma empresa de médio porte e estava pagando o apartamento. Sua esposa, Judite, chamava o local de cafofo. Ele preferia chamá-lo de ninho de amor.

 
Manoel era um cara de sorte.
 

Como ele poderia reclamar da vida? Tinha um emprego quase bom, o seu carro era uma pick-up Saveiro que era quase nova, morava em um apartamento que era quase bonito e era casado com uma mulher que era quase perfeita – mas que ele amava à perdição.

 

Sua vida poderia ser quase melhor, pelo menos ele pensava assim.

 

Mas a reclamação nunca foi o forte de Manoel e ele não podia fazer outra coisa além de deixar passar.

 

“Muitas decisões geram muitos problemas, e quem gosta de problemas, não é mesmo?”

 
Esse era o seu lema.
 

Melhor continuar vivendo e deixar uma oportunidade passar, do que gerar um problema.

 
E para ele, viver era quase bom.
 
 
 

Quando a noite chegou, ele foi até o quarto, abriu o caixão ainda sujo de terra, onde estava o corpo da esposa – atropelada no dia anterior – e se sentou lá dentro.

 

- É Judite – disse ele – aqui quase que cabe nós dois, né?

 

Ele se ajeitou um pouco melhor, segurou a tampa do caixão com a mão esquerda, se abaixou desconfortavelmente e beijou a testa da esposa.

 

- Boa noite querida, durma com Deus.

 

Dito isso, ele se levantou um pouco novamente, tirou o revólver 38 – que herdou do pai – da cintura da sua calça, apontou para sua cabeça e puxou o gatilho.

 

Judite nunca reclamou do peso do corpo dele sobre o seu, e Manoel estava quase sorrindo.

 
E assim eles dormiram para sempre, quase felizes.
 

 

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Jun 13 2008

A vida é assim

Escrito por Willian em Pergaminhos

 

A tarde estava quente do lado de fora do escritório da Wolfen & Littis Advogados Associados. Andrew estava pensando na sua vida, enquanto tomava Whisky no seu escritório no décimo terceiro andar. O gelo já começava a derreter, mesmo com o ar condicionado da sala ligado ao máximo. Sua vida começava a derreter também, como o gelo.

 

- É uma merda mesmo, uma grande merda. – Peter entrou xingando pela porta.

 

Andrew passou a mão esquerda na testa e continuou olhado para o seu copo.

 
- O que é dessa vez, Peter?

- Descobri que minha esposa está me traindo, Andy. Parei na porta de casa hoje e vi outro homem lá dentro. Com ela. Sozinho!

- Tá, e?

- Como assim “e”? Eu vou matar o filho da puta, vou matar o desgraçado.

- Sei. – Andy se mostrou desinteressado

- Seu Viado! Eu chego aqui, conto que minha mulher tá me traindo e você nem se mexe? Que porra de amigo é você?

- O que espera que eu faça? Que te diga para pegar uma arma e ir atrás dele? Ou dela?

- E não é isso? Eu sou corno, seu puto. Ouviu? Corno! Teu amigo é corno!

 

Andrew suspirou e tomou mais um gole, enquanto Peter andava de um lado para outro batendo as mãos na cabeça.

 

- Sabe – começou Andrew – eu acho que você devia deixar pra lá. Você nem tem provas. Isso de vingança não vai dar certo. Acho realmente que não vale à pena. Se ela te traiu, então parte pra outra.

- Mas… mas… eu não consigo viver sem ela. Eu amo aquela vagabunda.

- Então esqueça, passe por cima. Se aconteceu, é porque seu casamento não estava lá essas coisas.

- Que porra, Andy! Eu não quero passar por cima! Não vou ser um corno manso! Tá me ouvindo? Não vou!

- E vai fazer o que? Matar o cidadão? Vai preso? Pegar perpétua? Desistir do seu salário anual de seiscentos mil dólares? É isso que você quer? – Andy deixou o copo em cima da mesa e olhou diretamente nos olhos de Peter – É realmente ISSO que você quer?

- Não, quer dizer, sei lá. Quero fazer alguma coisa.

- Compre uma bicicleta.

- Quê? Comprar uma bicicleta? Tá me gozando?

- Você sabe que eu nunca brinco Peter, nunca.

- Puta que pariu! Eu falando contigo e você me fala pra comprar uma bicicleta? Vai tomar no…

- Opa! Cuidado, não é comigo que você está nervoso. Essa briga não é minha.

- Mas, ah, merda! Que porra, Andy! Você me fala isso de bicicleta? Tu não é amigo não cara, não é mesmo!

- Primeiro, um advogado criminal que ganha tanto quanto você não deveria falar, e tampouco agir, como os malandros que você defende. E, só para variar, eu estou certo; se você comprar uma bicicleta, vai ter que ir até a loja aqui do lado, vai conhecer uma atendente, comprar uma bicicleta, vai embora pedalando, enquanto esfria a cabeça. Do jeito que você está, não vai conseguir nada do que quer. – Disse Andrew sorrindo, um sorriso sarcástico e maldoso.

- E quem disse que eu quero esfriar a cabeça? Quer saber, vou pra casa agora.

- Tudo bem, boa sorte. – Andrew virou-se de costas para a porta e, pela janela, ficou observando o fim de tarde que se aproximava.

 

Peter saiu da sala batendo a porta e disparando grosserias para quem estivesse olhando para ele. Andrew suspirou novamente, aquele estava sendo um dia difícil.

“Decisões, decisões, sempre decisões” - Andrew pensou por um momento, colocou a mão no telefone sobre sua mesa e discou um número.

 

- Marilyn Kate Jones e Associados, aqui fala Betty, como posso ajudá-lo?

- Betty, aqui é Andrew Wolfen, me deixe falar com a Marilyn, por favor.

- Claro senhor Wolfen, já vou transferir.

 

Andy pensou se aquela era a decisão certa, se ele não estava se precipitando; ainda assim, na posição que ele ocupava, não podia se dar ao luxo de se enganar ou de deixar que alguma coisa atrapalhasse o seus planos. Uma voz feminina atendeu do outro lado.

 

- Ora, ora, se não é o senhor Andy Wolfen. Como posso ajudá-lo?

“Ironia” – Pensou ele – “Eu gosto disso”.

- Olá Marilyn, tudo bem?

- Sim, comigo sim, mas estou curiosa, o que o dono do maior escritório de advocacia de Pittsburgh quer falar com uma pequena advogada criminal?

- Você não é somente uma pequena advogada criminal, é exatamente do tamanho que eu preciso e quero comprar sua empresa. Quero que trabalhe para mim. – Andy ouviu uma risada do outro lado.

- Mas você tem uma equipe toda formada, e o seu advogado principal é muito bom. Todo mundo conhece Peter Littis, aliás, todo mundo tem medo dele. O que você quer comigo?

 

Andy sentiu uma ponta de sarcasmo do outro lado da linha, não ia ser fácil.

 

- Que tal assim, Marilyn, vamos jantar hoje? Pode ser? Às nove da noite, no Kiku.

 
Silêncio do outro lado da linha.
 
- No Kiku, você disse?
- Sim, exatamente.

- Você sabe vai precisar de reservas, certo Andy? Você está brincando comigo ou só quer me impressionar?

- Eu nunca brinco, Marilyn, nunca.

 

Após um pouco de hesitação, um suspiro do outro lado da linha.

 
- Tudo bem, as nove então.
 

Andy colocou o telefone no descanso sobre sua mesa e pegou seu celular. Discou outro número.

 

- Sim? – Uma voz grossa atendeu do outro lado.

- Peter Littis. – Disse Andrew, bem pausadamente.

 

Após alguns segundos, ouviu a respiração do outro lado.

 
- Considere feito.
 
Andy desligou novamente.
 
***
 

Andy saiu de seu escritório e foi andando até o escritório de Peter. Abriu a porta, entrou e ao fechá-la viu que o local estava vazio. O local cheirava a álcool. A porta do pequeno refrigerador sob a mesa estava aberta.

Caminhou até a escrivaninha do seu sócio e viu que sua secretária eletrônica estava piscando. Apertou o botão.

 

- Peter, querido… Sei que não quer falar comigo… olha… preciso te explicar… Ai Peter… o homem que você viu comigo… bem… ele era um médico, eu estava fazendo uma consulta particular, fora do horário, aqui em casa… Sei que deveria ter te falado… mas… Peter… oh Peter… Eu estou grávida! Nós vamos ter um bebê… Eu te amo Peter…

 

Um sinal indicava o final da gravação.

 

- É Peter, a vida é assim. Que pena.

 

Andy olhou, pela janela, para o horizonte; caminhou de volta até a porta e saiu do escritório.

 
***
 

DIÁRIO DE PITTSBURGH: (foto de um carro negro com chamas em volta e bombeiros no local) - O advogado criminal Peter Littis veio a óbito ontem à noite enquanto voltava para sua casa. Ao que parece, outro carro em alta velocidade bateu contra ele e fez com que ele perdesse o controle de sua Mercedes. Os policiais encontraram vestígios de álcool no corpo do advogado e garrafas vazias de vodka dentro do carro. Sua esposa Emily foi internada às pressas quando soube da notícia. As informações são de que ela perdeu o bebê de seis semanas que carregava. Peter tinha trinta e nove anos, e será velado na Igreja Batista, onde era membro ativo. A polícia continua procurando pelo outro carro envolvido no acidente.

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